Constata珲es (e pira珲es) na quarentena 3


Maria Avelina Fuhro Gastal

Meu novo normal ainda n鉶 conhece a rua. O que bom, pois n鉶 sei o quanto normal ele .

Nesta quarentena, que j virou 搉oventena e pelo visto chega f醕il a 揷entovintena, percebo mais anormalidades em mim do que qualquer possibilidade de vida normal.

Convivo com um lado desonesto que est sempre tra鏰ndo estrat間ias. Aprendi a engambelar a pulseira smart fit, aquela que eu tinha brigado em abril por marcar poucas calorias gastas em um dia de faxina (Constata珲es e (pira珲es) da quarentena 2). Antes de come鏰r a limpar, seleciono treino em circuito e bombo em tempo de atividade e calorias consumidas. Justo, pois fa鏾 muito mais repeti珲es de agachamentos, extens鮡s, step, flex鮡s ou qualquer outra possibilidade do que na academia. Mas minha enrola玢o n鉶 termina a. Ao final, vou at o aplicativo do Magrass e marco mais de uma hora de atividade f韘ica. Com uma s tarefa, extenuante e pesada, cumpro dois objetivos do dia. Depois, vida mansa, livros e 醙ua fresca.

Sim. Voltei a conseguir ler, mas ainda n鉶 assisto filmes ou s閞ies. Me d uma inquietude. Neste novo normal, coisas que sempre amei s鉶 as mais dif韈eis de manter. Parece que estou traindo a vida, tendo prazer sem ela.

A possibilidade de desligar a c鈓era nas diversas atividades on line libertadora. Fa鏾 os p閟, removo cut韈ulas das unhas das m鉶s, espremo cravos, limpo o teclado do computador com cotonetes, lancho, fa鏾 abdominais, vasculho Facebook e Instagram. Para aprender bastam os ouvidos. Sempre consegui prestar a aten玢o em mais de uma coisa ao mesmo tempo. Posso conversar com voc e saber tudo que as pessoas do lado est鉶 falando. D醖iva e castigo.

Aten玢o dispersa, mas efetiva (se que poss韛el esse bin鬽io), e audi玢o apurada s鉶 caracter韘ticas minhas. Por isso escuto minha casa. E como geme. Do nada, estala daqui ou dali. Quase sempre noite. 纒 vezes n鉶 consigo identificar de onde vem o barulho, mas ele vivo. Hoje me peguei a pensar. Teria o Queiroz se escondido aqui? J que ele tem o p閟simo h醔ito de entrar na casa das pessoas sem permiss鉶, permanecer nela como se fosse h髎pede, quem sabe isso explicaria alguns dos barulhos que eu escutava na casa, mas andam silenciados.

Algumas coisas se repetem desde o in韈io da quarentena. Mas parecem ter ganhado intensidade e volume. Por exemplo, agora s鉶 centenas de fios de cabelos castanhos que recolho pelo piso, roupas, travesseiro e passaram a ser milhares os fios grisalhos que nascem na minha cabe鏰 feito praga no Egito.

Por vezes, algumas rea珲es minhas me surpreendem.

H alguns anos costumo me presentear no meu anivers醨io. Viagens, finais de semana na Serra, roupas caras, botas. Nada disso faria sentido este ano. Optei por um len鏾l t閞mico. At a tudo bem. Estranha minha rea玢o quando ele chegou. Feliz ao extremo, apaixonada por ele, quase chorando de alegria em um dia de 28.

Em uma das poucas noites frias que tivemos at agora, t鉶 logo apaguei a luz e virei de lado para dormir, ouvi barulho de asas batendo. Ignorei. Ouvi de novo. Pensei: p醩saros. Que p醩saro bate asas meia-noite? Morcegos! L fora. Um pouco mais e senti um peso tombar na minha cama, bem pr髕imo a minha perna. Da cama ao banheiro, um pulo s, carregando junto o cabide de p que fica na frente da cama. Controlada a taquicardia, decidi enfrentar a criatura. Cobertores, len珞is foram retirados, sacudidos e nada. Escondeu-se. Munida de rodo e lanterna, deitei no ch鉶 para investigar embaixo da cama. Nenhum vest韌io. S poderia estar atr醩 das c鬽odas. Arredei as duas. J aproveitei para limpar atr醩. Nem sombra. Mais uma olhadela embaixo da cama, por via das d鷙idas. Agora nem p tinha mais. Refiz a cama. Al閙 de observar as dimens鮡s perfeitas para len珞is e cobertores, tive o cuidado de sacudir tudo mais uma vez. Mais de uma. Finalizei com uma generosa baforada de inseticida por todos os cantos do quarto. Deitei e tossi muito. Hoje penso que talvez tudo tenha sido um del韗io. Aquele tempo entre dormir e estar acordada. Vai ver nunca houve asas batendo, nem corpo tombando ao meu lado. Por via das d鷙idas, continuo muito cuidadosa a cada limpeza e troca de len珞is. O pior que n鉶 marquei tudo isso como circuito de exerc韈ios. Perdi uma 髏ima oportunidade de burlar a pulseira e a contagem de calorias gastas.

Mas a mais inexplic醰el das rea珲es prende-se a uma lagartixa. Ela habitava a minha 醨ea de servi鏾. A princ韕io, cada vez que eu entrava l, ela corria. Depois, foi suportando a minha presen鏰. Divid韆mos o tanque. Ela ficava quietinha na borda e eu cuidava para n鉶 fazer movimentos bruscos, nem espirrar 醙ua. Toda manh procurava por ela. Levei alguns sustos pela imobilidade dela. Temi por sua vida. Mas era apenas uma pregui鏰 moment鈔ea causada pela sensa玢o de bem estar e pertencimento. Eu ficava feliz no menor movimento que me denunciasse vida. Me afei鏾ei. N鉶 cheguei a dar um nome a ela, mas era percept韛el a confian鏰 e o afeto entre n髎. Na 鷏tima quinta, dia 18 de junho, n鉶 a encontrei no tanque. Olhei por tudo e n鉶 a achei. Senti falta. Perto do meio dia deparei com a lagartixa encostada no marco da porta que d para a cozinha. Im髒el. Tentei me convencer que apenas havia mudado de ambiente. Ao longo do dia, nada. Ainda ali. Na mesma posi玢o. Constatei o 骲ito. Lamentei e me pensei respons醰el. Teria cometido um 搕ixic韉io culposo? Revi a posi玢o dela e as possibilidades de um descuido meu. N鉶 parecia ser o caso. A localiza玢o do corpo n鉶 indicava um esmagamento pela porta ou pelo meu p. Morte natural? Teria ela tentado entrar para pedir ajuda? Jamais saberei. Precisava remover o corpo. Uma das minhas maiores dificuldades. Mesmo mortos, n鉶 me agrada a ideia de recolher com p ou peda鏾 de papel qualquer animal, nem mesmo moscas, imaginem, ent鉶, uma lagartixa que n鉶 era uma qualquer. S dia 20 enfrentei o sepultamento. N鉶 poderia deix-la ali, exposta como alimento para baratas.

Com tudo isso, restou uma preocupa玢o. E, em fun玢o dela, fa鏾 um pedido a voc阺. Mais noventa dias em casa, vai me lan鏰r na primavera. Se continuar depois, enfrentarei o ver鉶 na minha casa. Apesar da extrema limpeza que ela adquirir at l, n鉶 ficamos livres de baratas. Se eu me afei鏾ar a uma, o caso s閞io. Ent鉶, se eu escrever nas Constata珲es (e pira珲es) da quarentena 23 minha rela玢o mais 韓tima com uma delas, me socorram. N鉶 terei sido ungida com a genialidade de Clarice Lispector, mas acometida de perda total da sanidade mental.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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