Maria Avelina Fuhro Gastal
Aproxima-se dezembro e a uva passa j� vira alvo de acalorados debates. Os extremistas amam ou odeiam. Os conciliat髍ios admitem sua presen鏰 no card醦io, desde que n鉶 misturada a alimentos salgados. Os indiferentes n鉶 entendem tanta discuss鉶, que cada um coma o que quiser.
Nosso paladar pode causar estranheza para quem n鉶 compartilha do mesmo gosto. Percebo olhares acusat髍ios quando digo n鉶 gostar de molho vermelho, de chimarr鉶 e de sagu. Minha fixa玢o por alface desperta olhares desconfiados: mente ou � louca? Minha prefer阯cia pelos c韙ricos, bem azedos, aciona olhares de pavor.
A textura do alimento tamb閙 faz parte do nosso repert髍io gustativo. N鉶 me ofere鏰m berinjela. Por educa玢o, e falta de op玢o, posso at� colocar na boca, mas ela vai rolar de um lado para outro sem que eu consiga mastig�-la, muito menos engolir.
A Biologia nos diz que est� na l韓gua os terminais que determinam a percep玢o do gosto dos alimentos. A vida nos mostra que nosso paladar se vincula ao afeto.
Ao nascer, conhecemos o mundo pela boca. � por ela que nos alimentamos, nos acalmamos, reconhecemos as texturas, a temperatura, o outro al閙 de n髎, mesmo que pensemos incorpor�-lo.
Crescemos, mas muitas mem髍ias afetivas s鉶 despertadas pelo paladar. Minha av� fazia o melhor feij鉶 do mundo, meu pai, o melhor camar鉶, minha m鉫, o melhor siri. Creme de laranja tem gosto de inf鈔cia, de brincadeiras com o meu irm鉶.
J� cozinhei pelo prazer de alimentar quem amo.
Meus filhos e amigos pedem que eu leve salada em qualquer refei玢o festiva. S鉶 folhas e vegetais, 鄐 vezes, com frutas e gr鉶s adicionados, tudo que qualquer um pode juntar e montar uma salada, mas eles dizem n鉶 ficar igual. Talvez a diferen鏰 esteja nas mem髍ias, no carinho de m鉫.
Doce de bombons, mousse de chocolate tamb閙 entram nos pedidos especiais de filhos e sobrinhos. Os feitos por mim s鉶 diferentes, para eles. Devem ser realmente gostosos, pois nenhum deles me pede para levar bolo, embora h� quarenta anos eu tente fazer um minimamente com韛el, eles preferem n鉶 arriscar. Trauma.
Mesmo quando n鉶 d� certo, o alimento faz parte de nossas lembran鏰s, comp鮡m fragmentos de nossa hist髍ia, perpetuam-se como pertencimento.
Doce, amargo, salgado, c韙rico, azedo cada um de n髎 tem sua prefer阯cia. No entanto, os sabores se modificam quando associados a momentos de alegria, de prazer, de encontro.
Celebramos, conquistamos, agradecemos em volta de mesas. Cuidamos e demostramos amor cozinhando, preparando um prato especial ou, at� mesmo, encomendando algo pensando no outro. Servimos o alimento acrescido de especiarias de afeto. � esse o tempero que torna um prato inesquec韛el.
A vis鉶 de um alimento pode dar 醙ua na boca, o aroma, despertar a fome. Se muito c韙rico, pode provocar arrepios. Se doce demais, contrai os m鷖culos. Rea珲es similares a desejo e prazer sexual. Ma玢, morangos, vinho alimentam o imagin醨io dessa linha t阯ue.
Olhe, cheire, lamba, sugue, mordisque, se lambuze, aprecie com calma, desfrute.
Fa鏰 do paladar um combo de prazer.
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