Montanha russa


Maria Avelina Fuhro Gastal

Na Porto Alegre em que eu cresci, n鉶 havia montanha russa.

No parquinho da Reden玢o, uma singela roda gigante, menor do que a de hoje, era a 鷑ica possibilidade de nos sentirmos nas alturas, por breves momentos.

Lembro de ter ido diversas vezes naquela roda gigante. Sempre com um misto de medo e deslumbramento. O temor era aplacado por estar acompanhada de um adulto em quem eu confiava, o deslumbramento era por poder, naqueles instantes, n鉶 precisar erguer a cabe鏰 para enxergar al閙 da linha da cintura dos adultos. Quando l� em cima, eu podia enxergar al閙 daquilo que meus olhos estavam habituados a ver.

No in韈io da adolesc阯cia, a onda do tobog� tomou conta da cidade. Diferente da roda gigante, para alcan鏰r o topo eu precisava usar as minhas pernas. Muitos degraus me separavam da sensa玢o de liberdade ao me jogar, sentada em um saco de estopa, deslizando pela pista, at� alcan鏰r o ch鉶 e reiniciar a subida.

Foi no Rio de Janeiro que andei, pela primeira vez, em uma montanha russa, aos 14 anos. Nada de loopings, imensas subidas ou descidas, curvas acentuadas demais. Talvez o mais importante dessa experi阯cia tenha sido por ela sintetizar o meu desafio naqueles dias. Primeira viagem para fora do Estado, sem os pais, em uma cidade que exalava liberdade. O frio na barriga era constante e na montanha russa senti que ele era bom, prazeroso e sinalizava o in韈io da ruptura com o seguro e previs韛el.

Poucos anos depois, Porto Alegre conheceu a montanha russa. N鉶 sei quantas vezes entrei nas filas para reviver, na minha cidade, a sensa玢o de supera玢o que havia experimentado no Rio de Janeiro.

Aos 20, me tornei m鉫. O carro que subia e descia, derrapava em curvas, perdia a estabilidade e alimentava o medo era eu mesma.

Aos 28, fui m鉫 pela segunda vez. Logo depois, me separei. Finquei os p閟 no ch鉶. Desisti do imprevis韛el, me agarrei na perman阯cia.

Foram anos sem voos, nem mesmo em avi鉶 eu entrava. Meus olhos circulavam no meu entorno, tentando prever e evitar desastres, tapar buracos e frestas, escolhendo caminhos seguros onde meus filhos pudessem transformar seus passos em jornada.

Desde l� n鉶 me imaginava em uma montanha russa. Mais do que isso, j� tinha decidido nunca mais entrar em uma, ainda mais nas de agora que esticam ao m醲imo sua toler鈔cia ao risco.

H� tr阺 semanas, eu entrei em uma montanha russa. Subi insegura, me senti fortalecida por outros que me acompanhavam. Foram in鷐eras voltas. Em cada uma delas o medo se fazia presente, o sufoco encurtava a respira玢o, os loopings espantavam o sono, as subidas aliviavam a ang鷖tia, as descidas a alimentava.

Pelos mesmos motivos que finquei os p閟 no ch鉶 h� anos, entrei na montanha russa.

As op珲es eram ver o trem fantasma lotar e chorar ou impedir que aquele trem do medo, do culto 鄐 trevas, � morte e � amea鏰 atropelasse quem nele n鉶 estivesse.

Escolhi a vida, a luz, o avan鏾 e a supera玢o pela uni鉶.

Escolhi, escolho e escolherei sempre estar em uma montanha russa onde os sustos e os gritos s鉶 pela emo玢o e pela experi阯cia de liberdade, nunca pelo terror absoluto.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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