Meu pai, minha m鉫, meu irm鉶 e eu


Maria Avelina Fuhro Gastal

Na teoria, uma casa de quatro, meu pai, minha m鉫, meu irm鉶 e eu.

Na pr醫ica, uma casa de muitos.

A mesa da sala de janta tinha a possibilidade de ser estendida com t醔uas extras que ficavam embutidas nela quando fechada. N鉶 sei quantas vezes por semana precis醰amos estend�-la. Minha m鉫 fazia quest鉶 de mant�-la no tamanho padr鉶 para n鉶 desequilibrar o visual da sala. Na nossa adolesc阯cia, ela desistiu. Al閙 de acolher muitos pratos, amigos e familiares, us醰amos a mesa estendida para jogar ping-pong.

Sempre foi uma casa cheia, com uma mesa farta.

Familiares do interior ficavam conosco. Eu me mudava para o quarto do meu irm鉶 e deixava meu quarto para as minhas av髎 e tias. Ia feliz para o meu acampamento no quarto do Edmundo s� por t�-las conosco.

Familiares que moravam em Porto Alegre se reuniam na nossa casa e n鉶 eram poucos. Ao todo, tive 13 tios e um n鷐ero expressivo de primos. Com uma fam韑ia t鉶 grande sempre tinha algu閙 que resolvia dar uma 損assadinha� por l�.

Amigos e amigas do meus pais, do meu irm鉶, meus entravam e sa韆m o tempo todo. Mais f醕il seria ter uma porta girat髍ia, mas, mesmo naquela 閜oca, n鉶 seria seguro.

Era uma casa da diversidade. Pessoas de diferentes classes sociais, de diferentes n韛eis socioecon鬽ico, com variadas orienta珲es sexuais, de cores de pele do branco p醠ido ao preto, torcedores de diferentes times, simpatizantes ou militantes de ideologias diversas.

Meu pai e meu irm鉶 torciam pelo Inter, minha m鉫 pelo Gr阭io e eu torcia pelo Gr阭io, exceto em Grenais. Achava o Gr阭io antip醫ico demais, mas n鉶 queria que minha m鉫 fosse a 鷑ica gremista da casa. O que n鉶 se faz para se aproximar da m鉫.

Se, quando crian鏰s, gost醰amos da infinidade de brincadeiras e da aten玢o poss韛el com tantos em nossa volta, ao crescer come鏰mos a nos interessar por tudo aquilo que discutiam.

Com tanta gente em casa, ideias e opini鮡s circulavam o tempo todo. Debater era rotina, expressar o pensamento era incentivado, ler e estudar para n鉶 repetir discursos sem fundamento era necess醨io.

Cinema, futebol e pol韙ica ocupavam a maior parte da pauta.

Meu pai era PDT (antigo PTB), minha m鉫, PMDB (antigo MDB), meu irm鉶, PSDB, e eu, PT. A leg韙ima conviv阯cia democr醫ica. Debat韆mos muito, defend韆mos com ardor nossas posi珲es, faz韆mos campanha entre as visitas pelos nossos candidatos. O debate se ampliava, mas nunca se tornava desrespeitoso.

Meu pai faleceu em 1993, meu irm鉶 em 2010 e minha m鉫 em 2015. Nenhum deles viveu o Brasil de 2016 para c�. N鉶 viram o impeachment de Dilma, a homenagem de Jair a um torturador quando votava pelo impeachment, a ascens鉶 de Temer � presid阯cia da Rep鷅lica, a elei玢o de 2018, de 2022 e a de agora.

N鉶 sei como teriam se posicionado frente ao impeachment de Dilma e 鄐 elei珲es de 2018. Tenho suposi珲es, mas s� isso. Portanto, nada posso afirmar.

Em 2022, tenho a certeza de que n鉶 teriam votado em Jair, mas n鉶 sei se teriam votado em Lula.

Depois de 8 de janeiro de 2023, at� se n鉶 tivessem votado em Lula, estariam indignados e revoltados pelos atos golpistas.

Agora, em 2026, tenho a certeza de que, no segundo turno, votariam em Lula.

N鉶 � uma certeza partid醨ia ou ideol骻ica. Ela � baseada no que sempre aprendi com eles e nos valores que me ensinaram:
1. Olha ao teu redor, al閙 do teu umbigo, e decide teu voto,
2. Vota em paz com a tua consci阯cia e defende com argumentos e fatos teu voto,
3. As extremas direita e esquerda n鉶 s鉶 campos democr醫icos e, no poder, n鉶 ter鉶 escr鷓ulos em censurar, silenciar, perseguir, torturar e matar,
4. N鉶 se p鮡 em risco a democracia.

Voto 13 pelo meu passado e por tudo que aprendi com a minha fam韑ia e prezo acima de qualquer coisa, pelo presente constru韉o depois de muitas lutas, pelo futuro dos meus netos para que nunca tenham que viver suas inf鈔cias e adolesc阯cias sob uma ditadura.

Voto 13 para que, daqui a 4 anos, possamos novamente votar livremente e escolher entre propostas sem a amea鏰 de ruptura democr醫ica.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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