O Céu, e o inferno, da Língua


Maria Avelina Fuhro Gastal

Foi-se o trema.

Você para, mesmo quando está indo para casa.

Você tem ideia de que o ditongo aberto das palavras paroxítonas foi abolido como se tivesse, algum dia, sido escravizado?

Pelo encravado? Deve ser extraído pelo médico dermatologista.

É normal que na hora que o voo levante, um enjoo tome conta daqueles que não creem. Todos perderam o chapéu. Seria por respeito aos que rezam?

Adoniran Barbosa não podia ficar nem mais um minuto. Levou mais de três se explicando. Perdeu o trem.

Gregório Duvivier no espetáculo “O Céu da Língua” brinca com a língua portuguesa, reaviva a nossa memória, escancara incoerências na comunicação, mistura pitadas de história, literatura, poesia e comédia.

Rimos, mas também refletimos. Uma prova de que o humor também nos faz avançar.

Alimentada pelo veneno, me peguei questionando o significado da expressão “mera formalidade”. Definida como forma pejorativa de algo que deva ser cumprido, mas que não damos muita importância. Cumprir horário seria uma mera formalidade?

Comprei ingresso para a sessão de sábado, dia 05/09, 16h30. Cheguei antes, procurei o meu lugar, me sentei e esperei. Esperei. Esperei. Esperei. Vinte minutos depois das 16h30 a campainha tocou as três vezes que anunciam o início. Vinte minutos é mais do que simples atraso. É desrespeito. Horário marcado não pode ser encarado como mera formalidade. É compromisso de entrega daquilo que foi adquirido. É consideração e respeito pelos compromissos que temos a seguir. É não se ver como centro do mundo, mesmo quando estrelando um espetáculo.

Por outro lado, a apresentação do QR Code para liberação do portão de saída do estacionamento deveria ser mera formalidade. Para não ter que penhorar a estepe para pagar o estacionamento da PUCRS, gerido pela Indigo Neo, comprei três horas de estacionamento de forma antecipada pelo valor de uma chave de roda. Na entrada apresentei o QR Code que fez a leitura do tempo pago e da placa do carro que apareceu na tela do equipamento deles. Na saída, fila interminável. Mesmo já tendo a placa do meu carro sido registrada junto com o tempo de estacionamento comprado, tinha que, novamente, fazer a leitura do QR Code. Mensagem na tela: QR Code já utilizado. Óbvio, eu entrei usando. Chama o fiscal para conseguir liberar a cancela. Imaginem isso com cada um dos veículos que já tinham sido identificados na entrada. Se meu carro já estava no sistema deles por que não fazer a liberação pela leitura da placa?

A gente ri. Mas também se irrita. E, eu, me atrasei para o meu Trem das Onze pelos 40 minutos a mais que eles acrescentaram sem nenhuma explicação ou desculpa.

Para o mundo que gira em torno do dinheiro, do lucro, da mercadoria, a mera formalidade somos nós, pessoas.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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