Maria Avelina Fuhro Gastal
Larissa,
Antes de mais nada, me desculpa por não lembrar de ti.
A princípio pensei tratar-se de um engano, alguma troca de algarismo na hora de teclar.
Dada a insistência, passei a considerar o fato de que talvez te conhecesse, mas não lembrava.
Na minha idade, a preocupação com a minha memória tomou conta de mim. Estaria enfrentando algum tipo de manifestação de debilidade cognitiva? Algum sintoma básico de senilidade? Falhando a memória de curto ou longo prazo? Teria eu te conhecido há pouco tempo ou já há muito tempo e, simplesmente, minha memória não alcançava o nosso encontro?
Lembrei de algumas Larissas com quem cruzei durante a vida: filhas, companheiras, amigas de conhecidos meus, mas com nenhuma desenvolvi laços de amizade. Contigo parecia ter sido diferente. E, logo de ti, não tinha qualquer referência que te trouxesse para os meus, já incontáveis, dias.
Minha atitude inicial foi egoísta e mesquinha, me preocupei comigo, ignorando o que poderia estar acontecendo contigo.
Por sorte, ainda preservo um pouco a capacidade de refletir, apesar do manifesto problema de memória.
Passei a pensar em ti, na tua situação, naquilo que poderias estar enfrentando.
Percebi que nem sempre a mesma voz pede por ti. Às vezes são homens, em outras, mulheres. Nem sempre são os mesmos, os sotaques e a melodia das vozes denunciam. Uns arrastam no “s”, chiam, outros acentuam o “t”, o “r” ganha muita força em alguns e para outros parecem não existir. Tens viajado pelo país?
O comum entre aqueles que pedem por ti é a perseverança. A mesma dos provedores de Internet que insistem em te vender o melhor pacote de acordo com a necessidade ou, pior ainda, das firmas de cobrança que não cansam de alertar sobre a multa, os juros e as medidas judiciais cabíveis em caso de não quitação da dívida.
Também pensei em possíveis amores e aventuras. Daqueles que não aceitam o rompimento, que querem se fazer presente a qualquer custo, os perigosos que, mais do que interessados ou apaixonados, se enxergam como donos. Temi por ti. Tentei me tranquilizar já que são várias vozes, masculinas e femininas. Puro preconceito meu. Se não consigo lembrar de ti, menos ainda sei sobre tuas experiências sexuais e me deixei tranquilizar baseada em uma forma reduzida de enxergar as possibilidades de se relacionar.
Há duas semanas enfrentando essa situação perturbadora, me descontrolei. Pedi para que eu não fosse mais contatada para responder por ti. Minha surpresa foi a resposta que levaria dez dias para que a minha solicitação fosse atendida e eu pudesse ser retirada do sistema deles. Sistema? Será que estamos lidando com uma rede? Tráfico sexual? Crime organizado? Seja o que for, que droga de sistema inoperante e lerdo. Amadores? Ou mais uma estratégia de tortura psicológica? Parece um labirinto sem fim. Pelo menos, ganhamos alguns dias. Temo que depois do prazo esgotem-se as possibilidades de te contatar, até lá, vou repensar se mantenho a solicitação.
Por enquanto, o prazo está correndo. Então, por favor, faz contato comigo, diz de onde nos conhecemos e me tranquiliza sobre a tua situação.
Liga. Sabes o número do meu celular, é o mesmo que forneceste para essa quadrilha que não me dá paz.
Clique aqui para seguir esta escritora
Pageviews desde agosto de 2020: 551516
Site desenvolvido pela Editora Metamorfose