Machismo e feminismo


Maria Avelina Fuhro Gastal


Há dias que me sinto como se tivesse dormido por anos e acordado no passado.

Acordado em um passado não de boas lembranças ou vivências, mas em um que já se pensava superado.

Um retrocesso de quase um século em que aspectos sociais, políticos e culturais se nutrem de preconceitos e ódios.

Supremacia branca, crenças nazifascistas proliferam e chegam ao poder em campos, até então, tidos como democráticos.

Ser mulher é perceber o risco que corremos sem termos atingido, nem de perto, o que é devido à pessoa humana.

Rimos, nos indignamos, criticamos quando, em 2016, Michel Temer descreveu a sua mulher como “bela, recatada e do lar”. Mas não percebemos que havia uma semente germinando no pensamento misógino e machista da nossa sociedade.

O esforço que o adolescente faz para se tornar homem é respeitado e lhe dão grande liberdade, enquanto a adolescente é desencorajada a escolher seus divertimentos e prazeres, mantendo-a em casa e sob constante vigilância. “Além de uma falta de iniciativa que provém de sua educação, os costumes tornam sua independência difícil”.

O parágrafo acima está nas páginas 81 e 82 do Volume II de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, publicado em 2016 — mesmo ano da lamentável fala de Temer — pela Editora Nova Fronteira. A edição original foi lançada em 1949, pela Editora Gallimard, em Paris. Entre uma publicação e outra, passaram-se 67 anos; desde então, já se passaram mais 10. Setenta e sete anos! E ainda nos querem belas, recatadas e do lar.

Assusta essa constatação. Assusta, ainda mais, ver o discurso se ampliando e sendo defendido também por mulheres que atacam o feminismo sem conhecê-lo e aceitam o machismo em troca de benesses materiais e sociais. Contentam-se em ser prostitutas desrespeitando as mulheres que tem essa ocupação como subsistência e não por conveniência.

A ignorância ou o comodismo fazem com que bradem contra o feminismo igualando-o ao machismo. Afirmam ser os dois lados da mesma moeda. Não são.

O machismo ataca ao Outro. Não o reconhece em seus direitos e valores. Coloca-se em posição de poder e, assim, se vê como posseiro e a mulher como posse. É por essa posse que desrespeita, humilha, fere, violenta, agride e comete o feminicídio.

O feminismo resgata a Mulher, traz a ela força em ser o Outro não submetido ao poder e violência do mundo masculino. É na totalidade de se ser Mulher que exigimos respeito, não aceitamos humilhação, não nos deixamos ferir, controlamos o nosso corpo, o nosso desejo e prazer. O feminismo não quer destruir o homem. Quer se construir como Mulher sem o peso de ser posse de alguém.

Dizer que machismo e feminismo são os dois lados da mesma moeda é aceitar que exista superioridade no sexo masculino, é ignorar que a imagem do homem superior foi construída pela história, reforçada pela religião, é negar todo o caminho percorrido até aqui para que cada uma de nós possa exercer sua cidadania, gerir a sua vida, escolher a quem amar, decidir se permanece ou não.

Continue atacando o feminismo e, em alguns poucos anos, terá que pedir permissão ao homem ao seu lado para viver. Quando isso acontecer, você já não terá nada a viver. A vida de cada um não pode depender da permissão do outro.



Deixe um recado para a autora

voltar

Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

Clique aqui para seguir esta escritora


Pageviews desde agosto de 2020: 533559

Site desenvolvido pela Editora Metamorfose