Maria Avelina Fuhro Gastal
Não é sexta-feira, mas é agosto, dia 13.
Dizem que agosto é mês do desgosto e que o número 13 é de mau agouro. De agosto não tenho queixas, minha mãe e neta são desse mês, quanto ao número 13, me identifico com ele, temor mesmo eu tenho do 22.
Descrente, não acredito em superstição. Também não acredito em deus. Para mim, ambos são criações humanas para exercer controle e impor medo. Mas “no creo em las brujas, pero que las hay, las hay”. Assim, some a essa minha incongruência anos de educação em colégio católico. Resultado: culpa cristã associada ao pavor de ignorar sinais e ser punida pela má conduta. Agosto/13, véspera de sexta-feira poderia ter esse efeito na minha vida?
Pelo sim, pelo não, confesso, pequei, peco, tenho pecado o tempo todo, em casa, na rua, sozinha, acompanhada. Sou o próprio pecado não-ambulante.
Não sou tomada pela Soberba, embora acredite que alguma desobediência é sempre necessária.
Avareza, não tenho. Sou mais pão dura comigo do que com os outros, embora, de um tempo para cá, venha me dando mais direitos de usufruir do meu próprio dinheiro, ainda que sofra quando algo custe mais do que R$200,00, seja o que for.
Irada, só com aqueles que ignoram os outros, usam do poder para benefício próprio, espalham fake news, agem contra o país, usam a religião para ludibriar e o pai para se vitimizar.
Luxúria poderia ter um tiquito mais na minha vida. Algo entre a luxúria e a pureza, pois não tenho a menor vocação para santa.
Gula só se o tanto que como de alface possa ser considerado pecado. De resto, tudo muito controlado, sem gordura, sem açúcar, sem fritura. Menu de cafeteria me dá pânico, sustento a fome e despacho a tentação. Esse pecado não faz parte de mim.
Sou tudo, menos preguiçosa, embora minha mãe sempre dissesse que eu era. Talvez até tenha sido na adolescência quando não arrumava meu quarto nem meu roupeiro, mas para aí. De lá para cá, sofro do mal oposto, mantenho tudo em ordem, limpo, organizado, etiquetado, dobrado, guardado e não sei “fazer nada”.
Resta a Inveja. E é aí que tenho pecado com dedicação. Cada vez que chego até a janela de casa, sempre que saio na rua, em todo o momento, quando estou parada na sinaleira, e avisto alguém com roupa esportiva, tênis, fones de ouvido e um ar de que a vida vale a pena, eu invejo. Invejo muito. Sofro e invejo mais. O que diferencia a minha inveja da condenada por deus, é que não fico triste por quem passa, fico triste por mim.
Desde maio, não caminho, não danço. Já avancei. Passei dos 300 passos diários para cerca de 4.000, não contínuos. Ainda longe dos 12.000 que eram a minha rotina. Descrente, não tenho a quem pedir ou fazer promessa, só me resta acreditar na fisioterapia, no pilates e na academia para reforço muscular. Persisto, mas invejo, às vezes fico braba, mas nem perto de pecar pela Ira. Não por esse motivo.
Talvez o problema não seja o que sinto, mas sim a necessidade de atualizar os Sete Pecados Capitais. Não me parece que eles sejam justos, pois os maiores pecadores estão em posições de muito poder, matando inocentes, dizimando povos e acumulando riquezas. Muitos deles agindo em nome de um deus, sem nenhuma culpa. Aqui sim, melhor eu parar ou terei que acrescentar a Ira a minha confissão.
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