Maria Avelina Fuhro Gastal
Há livros que “lemos” sem jamais ter aberto, sequer, a primeira página.
Vidas Secas, Madame Bovary, Os Miseráveis, O Pequeno Príncipe, Alice no País das Maravilhas, O Tempo e o Vento, Dom Casmurro, O Diário de Anne Frank e outros parecem fazer parte do conhecimento literário de todos, mesmo daqueles que não os leram. Seja pela permanência das obras ao longo do tempo, seja pela importância do tema ou pela representação de um momento histórico, pela adaptação para o cinema ou televisão, ou, ainda, pelas citações, muitas equivocadas, que assolam as redes sociais, todos têm uma opinião ou comentário a fazer.
Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, deve ser o campeão em comentários e citações de internautas que, talvez, nem tenham ideia do que Veredas significa.
Por três vezes eu já havia tentado ler Grande Sertões. Tropecei no início e não encontrava Veredas para seguir.
Há oito anos consegui fazer a primeira leitura completa do livro. Usei artifícios para conseguir avançar. Li as primeiras quase 100 páginas em voz alta, como se eu fosse Riobaldo contando um causo para alguém na minha sala. Por sorte, esse alguém era ninguém, pois ele teria desistido e tentado fugir na leitura das 20 primeiras. Eu não conseguia achar o ritmo, me atrapalhava com as palavras, ignorava a melodia do texto. Como meu ouvinte não existia, ele persistiu, assim como eu. Por encanto, ou pacto, a oralidade fluiu. Eu era o próprio Riobaldo e me encantava com a minha habilidade e cadência de narrar os fatos ocorridos há tanto tempo.
Como acontece ao aprendermos um outro idioma, nem todas as palavras me faziam sentido, mas o encadeamento delas, a sonoridade, as ênfases, o ritmo das frases possibilitavam que eu entendesse o contado, sem significar cada palavra dita. Foi aí que me apaixonei.
Neste ano da graça de 2026, já reli Grande Sertão: Veredas por mais duas vezes. Na primeira, de forma rápida (tanto quanto possível) para acompanhar um curso sobre psicanálise e Grande Sertão: Veredas. Sim, tenho minhas loucuras incontroláveis e me meter em desafios de aprendizagem é, sem dúvida, a mais louca delas. Na segunda vez, reli com calma, por partes, guiada pelo Guto Leite em uma travessia de descobertas. É sobre essa experiência que quero contar para vocês.
Seguindo Guimarães Rosa, na terceira vez (o número 3 e sua força) adentrei ao Sertão. Personagens, além de Riobaldo e Diadorim, ganharam vida e fôlego nunca percebidos por mim.
O que a princípio pode parecer improdutivo, mostrou ser a diferença crucial na internalização e compreensão de todas as perspectivas e possibilidades do causo narrado. A cada dia, por um mês, o Guto comentava, em áudio no whatsapp, o trecho previamente marcado para a leitura. Símbolos, lugares, nomes, acontecimentos iam ganhando nova dimensão pela voz de alguém que já leu o livro mais de 20 vezes (sim, ele existe, é jovem e professor da Faculdade de Letras da UFRGS, além de poeta e compositor). A cada quinta-feira, o grupo se reunia on line e debatia o que tínhamos percebido e entendido ao longo da semana. Além dos áudios, recebíamos material como críticas, ensaios, vídeos e, até mesmo, a performance de Guto dando melodia a uma canção que na leitura não nos era dada.
Leio muito, amo discutir sobre os livros, faço isso o tempo todo formal e informalmente, mas jamais havia vivido uma experiência tão rica em acompanhamento de leitura.
“Viver é muito perigoso”. Mais perigoso ainda se passamos pela vida sem entrar nela. Desbravar Grande Sertão: Veredas é viver intensamente, provando do medo, da coragem e dos desvios.
Desbravar, pelas mãos do Guto, é se entregar ao pacto, que tanto pode nos levar ao inferno como aos céus.
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Se tiver interesse em percorrer estas Veredas, vá no Instagram @gutoleiteoficial e firme o pacto com ele.
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