Maria Avelina Fuhro Gastal
Dia 17 de junho não é uma data qualquer no calendário.
Há 90 anos, nascias, em Santana do Livramento. Às vezes esqueço teu lugar de nascimento. Aposto que tu também.
Teu lugar no mundo é Pelotas, no centro da cidade.
Na Félix da Cunha desmontávamos teu armário. Éramos lojistas, balconistas e misses. Roupas, brincos, lenços, perucas, faixas de cabelo, echarpes, bolsas, sapatos e carteiras nos transformavam naquilo que quiséssemos e o teu espaço em uma bagunça. Dia após dia sem que nunca reclamasses. Teu armário era nosso parque de diversões.
Mesmo sem ter filhos, correstes ao Pronto Socorro conosco várias vezes. Ou meu irmão enfiava lápis de giz na narina ou eu enfiava um pedaço de tronco de árvore embaixo da unha do dedão do pé. Aguentavas nosso escândalo, gritos e choradeira, sem perder a compostura ou tranquilidade. Já não posso dizer o mesmo da tua peruca que acabava sempre atravessada na tua cabeça, derrotada pelas nossas mãos e braços descontrolados.
Quando trocavas Pelotas por Porto Alegre, por breves períodos, era o melhor dos presentes nas nossas vidas. Aqui lutavas para te manter em pé quando um cachorro cruzava por nós e eu te escalava por medo.
Sempre te tive como a tia da diversão, do riso, da aventura e, até mesmo da transgressão, o que sempre me fez te obedecer, nunca por medo, sempre por cumplicidade.
Não há fase da minha vida sem a tua presença. Cresci te tendo por perto, mesmo em outra cidade. Vivi a adolescência te sabendo próxima. Quis o mesmo para os meus filhos. Do mais velho, és a madrinha. Quem mais poderia ter feito promessa para a redução da hérnia dele sem cirurgia ao mesmo tempo que me fazia costurar um pano enquanto fazia a volta ao redor do berço dele, cantando um ponto de umbanda? Acompanhada por ti. Mãe e madrinha, juntas. Lembras que não havia espaço entre o berço dele e a minha cama, então a volta tinha que se dar, em parte, caminhando em cima da minha cama? Cantávamos, caminhávamos e ríamos. No fim, te entreguei o pano costurado, pois cabia à madrinha enterrá-lo em uma porteira em que ele jamais passaria, mas nós não poderíamos saber onde era. Tenho certeza de que enterraste. Sempre confiei em ti. Talvez os santos não tenham aprovado as nossas risadas. A cirurgia correu bem.
Meus filhos te trazem nas memórias de infância, adolescência e vida adulta. És sempre presença, em Pelotas, aqui, em Atlântida Sul, Capão Novo ou Xangri-lá. Quanto sabão jogado no telhado na esperança de que a chuva parasse, quantos carteados repletos de jogadas suspeitas, quantas madrugadas de buscar em festas? Para quem não teve filhos, aguentasses muito de nós, teus sobrinhos, dos nossos amigos, dos nossos filhos e dos amigos deles.
Sempre que penso em ti, vem momentos bons. Vivemos outros muito duros contigo muito perto. Deles trago o conforto da tua presença.
Nascimento, infância, puberdade, adolescência, maternidade, vida adulta, envelhecimento. Não és só testemunha desse meu processo. És parte importante em cada um desses momentos.
E, hoje, já idosa, te vejo mais jovem do que eu. Teu brilho não está na pele, no corpo ou no cabelo, mas na tua essência que é inigualável.
Leonor, Gogô, Gô, tia Nonô. Noventou. Nonoventou.
Não és, nem nunca fostes, vento ou vendaval. Sempre brisa fresca, permanente, suave e refrescante.
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