Maria Avelina Fuhro Gastal
Este não é um texto sobre política. Pelo menos, não sobre política partidária.
Toda a organização da sociedade, seus valores e costumes, suas crenças e preconceitos, suas regras e leis, traz aspectos políticos que a norteia e determinam a forma como tratamos minorias, povos originários, classes sociais, questões de gênero e de raça.
Não há aspecto socioeconômico e cultural que não traga em si o pensamento político que embase ou rechace o vivido em determinado período da história. E a história não é linear. Não há somente avanços, há retrocessos. Não há somente evolução, há a convivência concomitante entre o passado, próximo ou longínquo, e o presente que o desafia. Não há garantias de um futuro promissor, mas há a esperança de modificação de estruturas e de ideias conservadoras e perversas, ou, pelo menos, o enfraquecimento delas.
Essa semana, parlamentares decidiram, sem discutir, sem considerar a pessoa nem a gravidade da situação, dificultar o acesso ao aborto legal para meninas que tenham engravidado em um estupro.
A política que eles trazem como verdadeira é a mesma de séculos. O corpo da mulher não pertence a ela, a maternidade se sobrepõe à mulher, a vontade masculina se sobrepõe à vida da mulher. E eles aplicam a sua verdade tentando obrigar meninas estupradas a gerarem uma criança que trará, sempre, em si a marca de uma violência. O feto também se sobrepõe à mulher. Não há mãe e filho nessa relação, há vítima e castigo, como se ela tivesse que carregar no ventre, e na vida, a punição por se deixar estuprar.
Lendo “Coisas Humanas”, de Karine Tuil, Editora Paris de Histórias me vi em conflito por, em um primeiro momento, olhar para a história narrada com a lente prescrita por uma sociedade que procura ofuscar a responsabilidade masculina aceitando como verdadeira a afirmação de que ela não disse não.
Quantos formas há de se dizer não? Gritando, esperneando, congelando, se debatendo, paralisando. Nem sempre as palavras saem. Calamos no terror, no medo, na angústia, frente ao inevitável. Calamos na vergonha, na culpa. Calamos para sobreviver.
“Olhe para a sua direita, olhe para a sua esquerda”. Com esta fala, Débora Falabella, no papel de Tessa, uma jovem advogada criminal de defesa em ascensão, nos convida a entrar no mundo da Prima Facie (do latim, à primeira vista ou à primeira impressão). Olhamos e vemos inúmeras cabeças daqueles que estão acomodados no teatro para assistir à peça.
“Olhe para a sua direita, olhe para a sua esquerda”. A frase é repetida mais para o final da peça. E junto é dito “em cada três mulheres, uma foi abusada”. Mais do que olhar para as inúmeras cabeças, olhamos para nós mesmas, mulheres.
Naquele universo limitado de um teatro, muitas já foram abusadas.
Naquele universo limitado de um teatro, muitos já abusaram.
Nem abusadas nem abusadores trazem tatuados na testa a sua condição. Nelas, a marca é invisível, perene, corrosiva. Neles, é só mais uma história de enaltecimento do macho.
Não mudaremos essa realidade sem mudar a visão sociopolítica, cultural e histórica do que é ser mulher.
Enquanto prevalecer a supremacia masculina, pais, irmãos, tios, maridos, namorados, amigos, desconhecidos vencerão escondidos atrás de mentiras socialmente aceitas e que responsabilizam a mulher pela violência contra ela:
- Ela não disse não.
- Ela só estava se fazendo de difícil.
- A roupa dela era um convite ao sexo.
- Ela já tinha topado antes, só depois mudou de ideia, mas eu já não podia parar.
- Ela foi ao meu apartamento por vontade própria.
- Ela que me convidou para entrar.
- Eu só toquei nela, nada mais.
- Ela parecia estar gostando.
- Eu não fui o primeiro nem o segundo com quem ela transou.
- Ela já passou pelas mãos de muitos.
- Achei que o não era só para apimentar o sexo.
- Era uma fantasia, sexo à força. Fantasia dela, eu só me esforcei para satisfazê-la.
- Nem virgem ela era mais.
- O corpo e as roupa não eram de menina.
- Como assim? Ela é minha mulher.
Acuadas, atacadas e responsabilizadas pela sociedade, pelos pares, pelas iguais, pelos operadores do Direito as mulheres questionam sua responsabilidade na violência praticada contra elas.
Vergonha e culpa são sufocantes. Silenciam traumas, dores e desamparo.
Morre um pouco da mulher que poderia ser.
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