Hipotenusa, sua linda


Maria Avelina Fuhro Gastal

Foi na adolescência que me deparei, pela primeira vez, com minha total incapacidade de compreender algo que muitos dominavam com alguma ou bastante facilidade.

De uma hora para a outra, a relação entre os lados e ângulos dos triângulos retângulos transformaram-se em um emaranhado de senos, cossenos e tangentes. Obscenos. Algo que jamais tive em mim a capacidade para entender.

Já havia zerado a primeira prova de inglês que fiz em minha vida. Ainda lembro que a palavra “yellow” estava na prova. Só não tenho certeza de que se era a única palavra que eu entendia ou se nem ela eu compreendia.

O zero na prova foi menos devastador do que o enfrentamento da Trigonometria. O inglês, eu superaria, a Trigonometria permaneceu como trevas.

Na vida adulta, o mercado financeiro teve em mim o mesmo efeito dos senos, cossenos, tangentes e obscenos. Debentures, commodities, mercado futuro, juros compostos, ativos, CDB, Spread, Bear Market e outros termos mais não encontravam no meu cérebro neurônios suficientes para a compreensão.

Em uma sociedade capitalista, me apropriei daquilo que me interessava para, pelo menos, não perder dinheiro. Investimentos conservadores, orientação de profissional para investir com algum risco e acompanhamento da taxa cambial para planejar viagens e converter reais em outras moedas.

Pensava, até então, que, pelo menos eu havia avançado, mesmo sem dominar o mercado financeiro, além da minha incapacidade com a trigonometria, que se mantinha como a maior prova de minha insuficiência cognitiva.

Hoje, vejo que não. Quando escuto sobre os dados do Banco Master, sobre o montante de valores desviados, sobre as manobras para encobrir a fraude, sobre o uso de financiamento de projetos como modo de desvio e lavagem de dinheiro, percebo que nada sei.

Mais ainda, quando vejo as pessoas defendendo, justificando, acreditando em uma família-quadrilha que tem como objetivo a espoliação de aposentados, pensionistas, trabalhadores, percebo que minha capacidade de compreensão não se esgota em números, avança pelo campo que sempre me pensei com mais facilidade de entendimento.

O espanto é tanto, a impossibilidade de compreensão tamanha, que me pego achando a hipotenusa a coisa mais querida. Ainda mais sendo ela feminina, imponente, enfrentando os catetos, que precisam ser dois frente a ela.

Saudades do tempo em que minha incapacidade de compreender limitava-se a ângulos e números, nunca a pessoas.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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