Dicas amadoras de viagem


Maria Avelina Fuhro Gastal

Qualquer viagem começa muito antes do embarque.

Elas podem nascer de um desejo, de um convite, de uma possibilidade, de um desafio, de um pouco de tudo isso.

Sem planejamento, elas não acontecem.

Definido o roteiro, pesquise o custo das passagens aéreas, as características e costumes do lugar, o clima na época da viagem, a melhor região para a estadia, os custos das acomodações e da alimentação, as atrações e a necessidade de compra de ingressos antecipada, os meios de locomoção no local. Leia sobre a história e a situação atual do lugar.

Viaje antes de embarcar.

Contrate um cartão internacional e vá depositando valores na moeda do país a ser visitado. Sem nenhum ganho por publicidade, indico o Wise. Já usei na América do Sul e na Europa, sem nenhum problema. Só lembre que a primeira compra deve ser no Brasil para desbloquear o cartão, então é necessário um depósito inicial em reais.

Ao comprar a passagem aérea, avalie custo e tempo total da viagem. A economia não vale um voo interminável, com várias escalas ou conexões, em muitas delas tendo que pegar a mala e fazer novo despacho, em um curto espaço de tempo e em aeroportos enormes, onde o seu portão de desembarque e de embarque tem léguas de distância entre eles.

Avalie, também, a possibilidade de pagar um pouco mais para poder escolher um assento com mais espaço. A classe econômica básica é uma lata de sardinha, ficamos confinados em uma fileira estreita, sem espaço para qualquer movimento, entulhados com travesseiro e coberta fornecidos pela companhia, que, considerando o nenhum espaço que dispomos, equivalem a duas caixas incompatíveis com os centímetros disponíveis. Tudo isso com a mínima inclinação do encosto do assento. Se o voo já é longo, ele não precisa ter requintes de tortura.

Faça a mala com alguma antecedência, tempo possível para refazê-la diversas vezes.

Lembre-se que terá que carregá-la por aeroportos, calçadas irregulares, transportes públicos abarrotados, sem nenhuma ajuda para retirá-la da esteira, a não ser que haja um brasileiro perto de você. Não espere nenhuma ajuda de qualquer outra nacionalidade, ela não acontece. E, em alguns hotéis é comum não ter elevador, ou, se tem, ele para no vão entre duas escadas que levam ao andar de cima ou de baixo e compete a você carregar a mala até o destino.

Escolha o que levar na mala considerando conforto e praticidade, sem perder a elegância, sendo despojada. Nem pense em comprar um tênis novo para a viagem. Leve o confortável, já batido e usado, que não faz bolhas. Você vai fazer, caminhando, quase a mesma quilometragem que separa a sua casa do país visitado.

Leve uma mochila com, pelo menos, uma muda de roupa. Pode acontecer de você pousar em Paris e a sua mala em Bangkok. Duvida? Observe os enormes balcões de extravio de bagagem nos aeroportos, com vários funcionários e filas enormes. Se não fosse frequente, bastaria um quiosque de autoatendimento. Inclua também uns lanchinhos nela.

Comprada a moeda do país, disponível no seu cartão, jamais faça a conversão dos preços para o real. Lembre-se que o dinheiro que você planejou gastar já está na sua conta, então viva em dólar ou euro, esqueça o real ou você ficará paralisado e com fome. Só acompanhe o seu saldo e faça opções compatíveis com o seu orçamento.

Comece qualquer contato cumprimentando no idioma local e termine agradecendo também no idioma local. Entre esses dois momentos, apele. Use mímica, aplicativo de tradução, ou peça desculpa e pergunte se pode falar em outo idioma, já falando. Pela minha experiência, o inglês salva. É divertido ouvir um outro sotaque na língua inglesa, faz o nosso parecer menos tosco.

Prefira sempre comer em parques, em praças, pelas ruas. Mesmo que você não fale outro idioma, aprenda e decore a expressão “to go”. Essa expressão ajuda a economizar e é entendida em qualquer país. Leve seu lanche ou bebida para as ruas, ou você pagará mais por ter sentado. Deixe a opção de se sentar confortavelmente para comer em cafés ou restaurantes para momentos especiais e usufrua a experiência.

Não despreze, jamais, a possibilidade de usar o banheiro que encontrar pelo caminho. Aja preventivamente. Se precisar, pague para usar o banheiro quando houver possibilidade. Algumas lojas oferecem essa opção. O pagamento pode ser em moedas ou no cartão direto no acesso aos banheiros, mesmo os públicos. Rendam-se a essa dica, ela parte de uma pessoa que odeia usar qualquer banheiro desconhecido ou de lugar público.

Familiarize-se com o Google maps ou qualquer outro aplicativo de localização em um lugar que você domina. Saia e siga as ordens do aplicativo. Entenda o que é dirigir-se à sudeste, norte ou qualquer outro ponto cardeal, o que é a primeira, segunda ou terceira saída na diagonal da rotatória. Treine o cérebro para as ordens. Prefira sempre a orientação por voz, a chance de erro é menor. Não é fácil seguir em direção à Kalverstraat ou Nieuwendijk. Até lá, o cérebro já deu nó tentando, minimamente, juntar as letras e identificá-las nas placas, quando existem. Dica de ouro: ao clicar em iniciar a rota, veja quantos metros até a próxima indicação e comece a caminhar. Se a metragem aumentar, volte, você está indo na direção errada.

Leve adaptador de tomada, cabos com diferentes encaixes de USB e, já considero indispensável, um power bank, desde que seja dos permitidos em avião, sempre na bagagem de mão. Não é fácil achar um lugar para recarregar o celular e, sem ele, adeus a qualquer aplicativo de localização e, pior, nenhuma chance de encontrar uma forma de pedir ajuda ou transporte que o salve.

Pesquise alternativas ao Uber. Na Europa, o Bolt funciona muito bem e dá descontos nas três primeiras viagens. É salvação quando você está totalmente perdido e quase sem bateria no celular. Chame o serviço antes que ela acabe. Fui salva duas vezes e, a partir daí, sempre escolhi a orientação de localização por voz. Não me pergunte como, mas, em Bruxelas, estando a dez minutos, a pé, do hotel, caminhei seguindo as orientações pelo nome das ruas e, depois de quarenta minutos caminhando, eu estava a cinquenta e três minutos do hotel e quase sem bateria. Usei o restante da bateria para chamar o Bolt e esperei. Deu certo. Estou aqui.

Volte cansado. Descanse em reais, lendo um livro ou assistindo à Netflix. Viajar é cansar por prazer.

Se algo der errado no planejamento, improvise. A uma semana da viagem, fiz uma entorse de joelho. Vi meus euros batendo asas em voo solo. Pedi ajuda, contratei transfer, e tive o apoio incansável da Lucélia, da Dynamike Turismo, para o roteiro na Bélgica e na Holanda. Seis dias de repouso e embarquei. Ainda com dor, fiz da joelheira minha companheira de viagem. Refiz planos, desisti de algumas atividades previstas, tive que abrir mão do Festival do Livro em Paris, filas e escadas derrubaram muitos sonhos, mas ainda vivi muitos outros. E sempre teremos a Feira do Livro de Porto Alegre. Único arrependimento é o de não ter ficado mais dois dias em Amsterdan. Por outro lado, a saudades já estava batendo forte e foi bom ter voltado.

Toda viagem é uma oportunidade. Aqui, lá, acolá, não importa o destino, mas a experiência. Fiz da frase – o possível é sempre muito mais do que o nada – meu mantra da viagem. E foi muito, muito, muito mais do que ter ficado em repouso. Agora, vou encarar o joelho e me preparar para outras andanças.

Se quiser repetir um destino, repita. Se há novos lugares para conhecer, também há lugares para repetir, sempre. Se eu pudesse, toda viagem teria escala em Paris, algo como Porto Alegre-Paris-Pelotas, ou, Porto Alegre-Paris- Torres.

Escolha um novo lugar, repita o que lhe encanta, mas viaje. Toda viagem dura muito mais do que os dias de roteiro. Ela inicia muito antes e permanece em você para sempre.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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