Maria Avelina Fuhro Gastal
Fatiamos o dia em turnos, horas, minutos e segundos na tentativa de exercer algum controle sobre ele. Falhamos.
Há menos de 5 dias foi 1° de abril. Com raras exceções, passou batido. A mentira é tão presente atualmente que ter um dia dedicado a ela não faz sentido.
Lembro das brincadeiras do “Dia dos bobos” quando eu era criança, ingênuas, repetitivas, sem malícia ou agressividade.
Já na minha adolescência a mentira tomou o lugar das brincadeiras e se tornou oficial. Golpe civil-militar era chamado de revolução; o bolo que estava crescendo para ser dividido entre todos foi abocanhado por poucos, homicídio por tortura virou suicídio encenado.
Há décadas mentiras são repetidas e passam a ter cara de verdade: privatizando melhora, o problema do Brasil é o gasto com o funcionalismo, empreender te deixa livre do patrão e te enriquece, na Copa do Mundo Porto Alegre contará com a ampliação e modernização do transporte, sacos de areia e cimento contêm as águas dos rios, o planejamento urbano tem como prioridade a população, o Pix será taxado, os patriotas querem um país soberano e justo e por aí vai.
Glamourizando a mentira, passamos a ter Fake News. Mudam-se as moscas, a merda é a mesma.
Entre o Dia da Mentira e a Páscoa fui abduzida pelo Imposto de Renda. Rendimentos, gastos, comprovantes, retenção na fonte, rendimentos isentos, rendimentos com tributação exclusiva, outros rendimentos, CNPJ de fonte pagadora, de bancos, de fundos de aplicação, de plano da saúde. Um mundo de números, vírgulas, códigos, comprovantes e o medo constante de cometer um pequeno engano no preenchimento e ser engolida pela malha fina do Leão. Já fui mastigada, triturada por uma diferença de R$16,00 em um recibo médico. Sou povo, se fosse rica, saberia burlar e viver com tranquilidade. Como R$16,00 são investigados enquanto milhões passam desapercebidos?
Mesmo sem o friozinho gostoso, tão logo passei pela mentira homenageada e pelas garras do Leão, chega a Páscoa.
Apesar da minha falta de fé, admiro a figura humana de Jesus Cristo. Um homem que lutou contra preconceitos, arbitrariedades, injustiças, enfrentou o poder e se aproximou dos humildes. Tão diferente das ações que temos visto daqueles que usam a fé e a religião para corromper, aliciar e enriquecer.
Páscoa para mim é união, respeito e esperança. Gosto de ter minha família comigo, preparar frutos do mar para a Sexta-feira Santa, mesmo que os bolinhos de bacalhau, desde que minha mãe morreu, sejam encomendados (esse ano estavam perfeitos, puro bacalhau, sem batatas). Passar a tarde juntos, conversando, brincando, festejando a vida e a união entre nós.
O presente é feito a cada dia. Nele há rotinas, imprevistos, memórias, sonhos e momentos. Não podemos evitar de prestar contas ao passado nem de planejar o futuro. No presente há muito deles também. Inevitável o empilhamento do ontem, do hoje e do amanhã.
Não controlamos o tempo em nada, apenas precisamos aprender como vivê-lo sem sucumbir a ele.
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