O muito em pouco


Maria Avelina Fuhro Gastal

Muitos não concordam, outros abominam, a maioria se incomoda com o uso de palavra ou expressão de outro idioma para expor uma ideia em nossa língua nativa. Tentei, pesquisei em dicionário, elaborei a frase mentalmente usando vários vocábulos do nosso idioma, e, nada. Nenhuma atingia a força que eu queria transpor ao texto de forma definitiva.

Como definir a nossa experiência no mundo atual de forma inequívoca? Hiperlativa foi uma opção, mas achei presunçosa e não tão adequada. Extenuante seria pouco, exaustiva também. Assustadora, impensável, incompreensível, alarmante, ameaçadora não se excluem e não dão conta do todo. Essas sensações e sentimentos estão presentes em nossa experiência, mas não definem o mundo em que vivemos.

A todo momento, uma palavra estrangeira me vinha à cabeça, OVER. Optei por ela para definir o nosso momento no mundo. Não é por acaso que uma palavra em inglês abarque o caos em que vivemos. É tudo OVER, guerras, violência, invasões, preconceitos, perseguições, notícias falsas, ode ao pensamento fascista, intolerância, feminicídios, pedofilia, corrupção, blindagem de poderosos, ambição, fome, acúmulo de capital nas mãos de poucos, desigualdade social, bloqueios econômicos. Em tudo o que tem menos valor é a vida.

Se a vida nada vale, bombardeiam as cidades, matam as crianças, os adolescentes, os civis, a esperança. Agridem o planeta, poluem rios e mares, infestam o nosso ar, ignoram o sofrimento e a dor ao ver seu mundo ruir.

As notícias nos agridem, os discursos nos aterrorizam, a cumplicidade no silêncio nos deixa à deriva.

Para não enlouquecer, para encontrar sentido na nossa existência, continuamos com a nossa rotina, torcendo para que uma bomba não acabe com tudo, sem nem pensar nisso por muito tempo. São lampejos de pavor que atenuamos com pouco.

O antídoto para o OVER é o pouco. No pouco há o muito para nos manter em pé, para nos fazer sorrir, para nos permitir fazer planos.

Uma demonstração de afeto espontânea, um bom dia sincero, uma gentileza qualquer, um encontro com amigos, a convivência com a família, um mimo com significado, um comentário amoroso, um emoji inesperado, um sorriso no encontro, palavras de conforto, uma conversa agradável, um aroma de café no ar, um livro, um filme, o aconchego da nossa casa, um céu em diversas matizes nos mantêm acolhidos, respeitados, amados e vivos.

Esse pouco cotidiano é capaz de silenciar o OVER por algum tempo e nos fazer acreditar que a vida é boa, algumas pessoas é que não são. Ficarmos amargos e intolerantes nos faz reféns do veneno deles.

Eles desconhecem o muito e a força que há em tão pouco

Deixe um recado para a autora

voltar

Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

Clique aqui para seguir esta escritora


Pageviews desde agosto de 2020: 439650

Site desenvolvido pela Editora Metamorfose