A justa palavra


Maria Avelina Fuhro Gastal

Para quem escreve, palavras são desafios.

Nunca um texto tem o seu fim na última palavra digitada. Ele é revisitado, palavras são substituídas, expressões são alteradas. Estamos sempre em busca do termo mais adequado para expressar a ideia.

O difícil é que nem sempre esse termo existe. As palavras perdem o seu sentido pelo uso cotidiano, se esvaziam de sua força pela banalização, não dão conta de toda a perplexidade ou intensidade frente ao vivido.

No dia a dia, por vezes, palavras escapam de nossas bocas revelando segredos, denunciando traumas e expondo aquilo que lutamos para ocultar.

Na escrita, trazer essa armadilha das palavras nos emaranha em uma outra armadilha que faz com que nos debatamos para trazer ao texto a palavra, ou expressão, que dê conta das histórias narradas.

Palavra é narrativa.

Narrativa é memória.

Memória é antídoto à ignorância e à barbárie.

Em um 8 de janeiro, há três anos, vimos uma série de atos de vandalismo, invasão e depredação do patrimônio público em Brasília, nas sedes dos Poderes Constitucionais. Em 2026, alguns jornalistas ainda falam em manifestações antidemocráticas. Não foram. Foram atos golpistas na tentativa de derrubar um governo eleito pelo voto popular.

Assim como os escritores buscam a justa palavra para narrar sentimentos, ações e situações, acredito que os jornalistas também o fazem.

Chamar de “rachadinha” a corrupção e o roubo de dinheiro público, chamar atos golpistas de manifestações antidemocráticas, chamar de captura o sequestro de um presidente, ditador ou não, em solo soberano de um país corrompe a narrativa, apaga a memória, fomenta a ignorância, compactua com a barbárie.

Palavras são ferramentas. Constroem ou desmantelam realidades. O uso delas não é inocente. Filtre o que lê e escuta para não alimentar o veneno que matará a todos.

Não culpe as palavras, responsabilize quem faz delas ferramentas de controle.

Esteja atento ao tom em que são proferidas.

Observe que a extrema direita, para vencer, grita, debocha, ameaça, desdenha. Na primeira vez no poder alimentam o discurso de ódio, atacam minorias, desrespeitam as diferenças. Na segunda vez, fazem do discurso ação, invadem, perseguem, torturam, matam. Sentimos na pele a primeira vez, assistimos em choque a segunda vez naquela que já foi dita a maior democracia do mundo. Não há limites, não importam mais as palavras. Dane-se quem não é como eu, não pensa como eu, não se parece comigo, não faz o que eu quero. Todos passamos a ser nada, qualquer um de nós, mesmo aqueles que ecoaram palavras pensando que somente o outro seria destruído.

Em tempo de gado, nomeie os bois ou assuma que ajuda a conduzir a manada.

Palavras ferem, mas também resgatam. A decisão se ela será arma ou esperança é nossa.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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