Maria Avelina Fuhro Gastal
Desde que foi implantada a identificação facial para entrar no meu prédio, tenho problemas de acesso.
São dois portões e a porta principal do edifício, na maioria das vezes, passo por dois reconhecimentos e não sou autorizada no terceiro.
Não bastasse eu própria nem sempre me reconhecer no espelho, agora temo uma voz mecânica que diz: Usuário não identificado.
O quanto posso ter envelhecido entre cada um deles?
Lidamos com a mudança da nossa imagem o tempo todo. Não tenho certeza se o que vejo no espelho ou nas fotos causa nos outros o mesmo susto que provoca em mim.
Há alguns dias, um amigo da adolescência comentou em uma foto minha nas redes sociais, “sinais da idade, mas o mesmo charme”. Se era para ser elogio, não foi. Nunca me achei charmosa, então o que me resta são os “sinais da idade”, ou traduzindo, “como estás velha”.
Ele também envelheceu, mas eu jamais comentei sobre a aparência dele, nem mesmo sobre a barriga.
Parece que o envelhecimento da mulher é crime, e os homens se dão ao direito de comentá-lo sem se olhar no espelho. Quem não morre cedo, envelhece, a pele fica mais flácida, os músculos diminuem, os lóbulos das orelhas crescem, a pálpebra desanda, as rugas se multiplicam, os cabelos mudam de cor.
Ao longo da vida me disseram que tenho cara de antipática, de cheia, de rica, de inteligente. Não estavam 100% certos, nem 100% errados. Posso parecer antipática ou cheia, enquanto sou é tímida, rica não sou nem nunca fui, mas vivo bem, estou muito longe de ser burra e, exatamente por isso, não acho que a inteligência esteja na cara, mas nas ideias e ações.
Meu rosto, ao longo dos anos, passou alguma imagem para os outros. Hoje é vista apenas a ação do tempo, como se ela tirasse de nós a essência.
Se hoje tenho sinais da idade, é porque estou viva há muito tempo.
Construir uma imagem de si mesmo é conviver com todas as transformações, ela muda o tempo todo, sem um resultado definitivo. As nuances vão além da aparência. O que somos e o que parecemos é o somatório da nossa forma de encarar a vida, da existência de planos para o viver, das trocas afetivas que permitimos, da esperança sobrepujando a desilusão.
Encarar o espelho todos os dias, me ver em fotos recentes e não me reconhecer não é de todo ruim. Sinal de que me penso melhor do pareço.
Não vai ser uma tecnologia que vai me derrubar. “Usuário não identificado” o escambau. Moro aqui, é a minha casa, vou entrar nem que para isso eu tenha que quebrar a câmara. Se for chamada de “velha louca”, azar. Posso estar velha, mas não me cansei de esbravejar e brigar pelo que acho certo e ser reconhecida além da idade faz parte dessa luta. Já chega a experiência de ter ficado “eclusada”.
Se você desconhece o termo “eclusada”, acesse o link para esclarecimento, basta copiar e colar na barra de navegação:
https://mariaavelinagastal.com.br/index.php?pgn=texto&idtexto=1410
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