Um quarto de século


Maria Avelina Fuhro Gastal


Todos nós que nascemos no século passado, estamos vivendo, pela primeira vez, um período que será definido pela história como os anos iniciais do século XXI.

Isso faz de nós, além de espectadores, personagens da história.

Claro que em nossa vida os acontecimentos se dão em paralelo aos fatos históricos. Nesses últimos 25 anos vi meus dois filhos ingressarem na faculdade, se formarem, construírem suas vidas profissionais, sair de casa, casarem-se, exerci cargos que jamais havia imaginado, me aposentei, viajei muito mais, comecei a escrever, me tornei avó, venci a balança, fiz novas amizades, publiquei em coletâneas, em dois livros solos, contribuí com crônicas para alguns jornais e revistas, encerrei as minhas atividades como terapeuta de família, reencontrei amigos, perdi familiares. Tive alegrias, tristezas, desafios e medos.

Um quarto de século de nossas vidas não é história, é vivência, lembrança, orgulho, saudades.

Aqueles de nós que nasceram nas três décadas posteriores à metade do século passado, ouviram de seus familiares histórias sobre a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto, o horror do nazismo e do fascismo, alguns conheceram pessoas com o número gravado na pele nos campos de extermínio. Vivemos um longo período de ditadura militar com perseguidos, desaparecidos, mortos por tortura ou simples assassinato. Tememos o fim do mundo por uma guerra nuclear.

Aos poucos parecia que nossos monstros haviam ficado no passado. Democracia, luta por igualdade racial e de gênero, avanços no campo dos direitos humanos, liberdade sexual nos faziam acreditar que um outro mundo era possível. Um mundo onde “Imagine” deixasse de ser sonho e pudesse se tornar realidade.

Embora ainda houvesse muito a mudar, acreditamos que estávamos avançando, mesmo com tanta miséria no mundo.

Nossa esperança nos cegou.

Há uma figurinha de whatsapp com os dizeres “Quem não estiver confuso, não está bem informado”. Eu acrescentaria: assustado, preocupado, chocado, incrédulo, horrorizado e tantos outros adjetivos que poderiam dar conta, aproximada, da nossa perplexidade com esse um quarto do século XXI.

A extrema direita não morreu, voltou fortalecida, perdeu a vergonha em defender o fascismo, usa seus símbolos e discurso para chegar ao poder. É ungida por fanáticos, mas, também, aceita e venerada por cidadãos insuspeitos.

O temor a um conflito mundial ganha força.

A crise climática devasta cidades com inundações, mata animais e pessoas pelo calor excessivo, ameaça a sobrevivência na Terra. Continuamos com nossas vidas, consumimos cada vez mais, negando o papel que desempenhamos para o agravamento da crise.

A democracia tem sido corroída por dentro, com o apoio e aplausos de “cidadãos de bem”.

O maior valor da humanidade não é a pessoa humana, mas o capital.

Imigrantes, negros, mulheres são perseguidos, espancados, mortos. A reação é ínfima. Essas vidas não valem tanto para gerar revolta popular.

Há aqueles que denunciam, protestam, lutam por uma sociedade mais justa, um mundo mais equilibrado e tolerante.

Neutralidade é conivência, omissão é cumplicidade.

Muitos de nós não estarão mais aqui para acompanhar os próximos 25 anos deste século em sua totalidade. Nossos filhos, netos e bisnetos estarão. Vergonha e culpa não os blindarão às consequências de nossas ações.

Em época de individualidade, selfies, sucesso pessoal e valorização do ter sobre o ser, pensar no coletivo requer aprendizado. Aprender é disponibilidade, foco, exercício, repetição, tentativas, erros e acertos. É vontade de avançar, de descobrir alternativas, de alterar padrões, de questionar, de agir.

Um quarto de século se foi. Não foi bonito, não foi justo, não avançamos.

Para os próximos 25 anos quem queremos ser na construção da história?




Só por ilustração, uma lista simples, sem aprofundamento das questões, iniciamos o século com o ataque às Torres Gêmeas (2001), em Nova York. Ainda no âmbito mundial testemunhamos: invasão do Iraque pelos Estados Unidos e aliados, introdução do euro como moeda, tsunami na Indonésia, “Revoluções coloridas” que derrubaram os governos na Georgia, Ucrânia, Líbano e Quirguistão, Angela Merkel primeira mulher eleita chanceler da Alemanha, Barack Obama eleito primeiro presidente negro dos Estados Unidos, crise financeira global iniciada nos EUA, Julia Gillard primeira mulher empossada como primeira ministra da Austrália, Primavera Árabe, morte de Osama bin Laden, terremoto seguido de tsunami no Japão que provocou um dos piores desastres nucleares da história, renúncia do papa Bento XVI, eleição de Donald Trump como presidente dos EUA, guerra civil na Síria, morte de Nelson Mandela, eleição de Jorge Mario Bergoglio como 266º papa da Igreja Católica (Papa Francisco), invasão da Crimeia, ataques terroristas em Paris, atentado na Maratona de Boston, Brexit, protestos em Hong Kong por democracia e autonomia, pandemia da Covid-19, motim no Capitólio (EUA), tomada do Talibã no Afeganistão, invasão da Ucrânia, ataque terrorista do Hamas a Israel, ofensiva de Israel contra Gaza, genocídio em Gaza, reeleição de Putin, eleição de Donald Trump para segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, morte do Papa Francisco, eleição de Robert Prevost como papa Leão XIV, crescimento da extrema direita, protestos contra imigrantes, fortalecimento das candidaturas de extrema direita pelo mundo, agravamento da crise climática.

No Brasil assistimos nesse um quarto de século: crise hídrica e apagão, eleição de Lula para o primeiro mandato como presidente do Brasil, pentacampeonato mundial de futebol, posse de Lula como presidente, lançamento do programa Bolsa-família e Fome Zero, mensalão, sanção da lei Maria da Penha, reeleição de Lula para a presidência do Brasil, visita do papa Bento XVI ao Brasil, massacre no Complexo do Alemão, Cristo Redentor eleito como uma das sete maravilhas do mundo, acidente da Tam em Congonhas, Tropa de Elite, o filme, recebe o Urso de Ouro no Festival de Berlim, entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, primeira morte por Gripe A, apagão na Usina Hidrelétrica de Itaipu atinge 18 estados brasileiros, eleição de Dilma Roussef para a presidência do Brasil, posse de Dilma, fortes chuvas na Região Serrana do Rio com cerca de 900 mortos, decisão positiva do STF sobre a possibilidade de casais homossexuais firmarem contrato de união estável da mesma forma que casais heterossexuais, criação da Comissão Nacional da Verdade, julgamento pelo STF dos envolvidos no escândalo do mensalão, incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, ampliação dos direitos das empregadas domésticas, manifestações contra o aumento das passagens do transporte público, visita do papa Francisco ao Brasil, Copa do Mundo no Brasil, reeleição de Dilma para a presidência da república, posse de Dilma, ampliação dos protestos contra o governo Dilma e o PT ,início da Operação Lava Jato, rompimento da barragem em Mariana (MG), acolhimento pela Câmara dos Deputados do requerimento de impeachment de Dilma, impeachment de Dilma, posse de Michel Temer, Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, prisão de Eduardo Cunha e Sérgio Cabral Filho no âmbito da Operação Lava Jato, acidente aéreo com o time Chapecoense, surto de febre amarela, acidente aéreo mata Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no STF, Sérgio Moro condena Lula pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Câmara de Deputados barra denúncias contra Michel Temer, condenação de Lula a 12 anos de prisão, intervenção federal no Rio de Janeiro, Michel Temer incluído em inquérito da Operação Lava Jato, assassinato de Marielli Franco e Anderson Gomes, Lula é levado a Curitiba para cumprir a pena, greve nacional dos caminhoneiros, Bolsonaro é ferido por facada em Juiz de Fora (MG), candidatura de Lula à presidência indeferida, Hadad passa a ser o candidato do PT, eleição de Bolsonaro à presidência da república, posse de Bolsonaro, rompimento da barragem de Brumadinho, morte de jovens atletas em um incêndio no Ninho do Urubu, STF debate criminalização da homofobia e da transfobia, homofobia criminalizada pela Lei do Racismo, Michel Temer e Moreira Franco presos no Rio de Janeiro pela força-tarefa da Lava Jato, decisão do STF liberta Lula, após 580 dias preso, por considerar prisão em segunda instância inconstitucional, alerta sobre possível epidemia de dengue no país, pandemia da Covid-19, isolamento social, mortes, negacionismo, demora na compra de vacinas, desqualificação da Ciência, colapso em Manaus com hospitais sem oxigênio, anuladas as condenações de Lula relacionadas à Operação Lava Jato, decisão da Segunda turma do STF diz que Sergio Moro agiu parcialmente ao condenar Lula pelo triplex em Guarujá, número de mortes diárias por Covid ultrapassa a 4000, início da vacinação contra a Covid, instalação da CPI da Covid, uso político das comemorações do dia 7 de setembro por Jair Bolsonaro, campanha para eleição presidencial 2022, ataque à confiabilidade das urnas eletrônicas, operação da Polícia Federal nas rodovias, principalmente nos estados do nordeste, no dia do segundo turno da eleição presidência, eleição de Lula para o terceiro mandato de presidente da república, acampamento de manifestantes pró Bolsonaro na frente dos quartéis em Brasília, tentativa de atentado à bomba no Aeroporto de Brasília, posse de Lula, invasão do Congresso e do STF por manifestantes pró Bolsonaro, tentativa de golpe de estado, TSE condena Jair Bolsonaro à inelegibilidade por 8 anos, condenação dos primeiros réus pelo envolvimento no movimento golpista de 8 de janeiro de 2023, fortes ondas de calor em todo o território nacional, Lula sanciona a lei que oficializa o Dia da Consciência Negra como feriado nacional, enchente no Rio Grande do Sul, onda de incêndios provocados pelo forte calor, condenação dos assassinos de Marielli Franco, atentado à Praça dos Três Poderes, autor do atentado, candidato a vereador pelo PL em 2020 morreu no local, quatro “kids pretos” do exército Brasileiro e um policial presos pela Polícia Federal pelo planejamento de golpe de estado e assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, “Ainda estou aqui” e Fernanda Torres indicados ao Globo de Ouro, Fernanda Torres vence na categoria Melhor Atriz de Drama, prisão de Walter Braga Neto por tentativa de golpe de estado, aceita pela Primeira Turma do STF a denúncia da PGR que acusa Jair Bolsonaro e aliados pelo planejamento de um golpe de estado, “Ainda estou aqui” vence o Oscar de melhor filme internacional, Polícia Federal e Controladoria-Geral da União detectam fraudes no Instituto Nacional de Seguro Social, decretação de prisão domiciliar de Bolsonaro por descumprir medidas cautelares, Bolsonaro e mais sete réus condenados pelo STF por tentativa de golpe de estado e outros crimes, Bolsonaro é preso por tentativa de violar a tornozeleira eletrônica, STF determina o início da execução das penas dos envolvidos na tentativa de golpe de estado, campanha de Eduardo Bolsonaro junto aos EUA para a liberação de Bolsonaro, taxação dos produtos brasileiros pelos EUA, campanha por anistia aos envolvidos na tentativa de golpe, forte reação popular contrária à anistia, aprovação do PL da dosimetria das penas dos envolvidos na tentativa de golpe, encaminhamento do PL para sanção ou veto presidencial, mandatos de Eduardo Bolsonaro cassado por excesso de faltas e de Alexandre Ramagem por tentativa de golpe, extrema direita faz campanha contra chinelos havaianas por propaganda estrelada por Fernanda Torres, Brasil deixa o Mapa da Fome, relatório da OEA reconhece a tentativa de golpe de estado no Brasil, a plena democracia no país e a existência de instituições fortes e eficazes.

Nem tudo está acima. E ainda faltam 4 dias para o fim desse um quarto de século.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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