Fim de festa


Maria Avelina Fuhro Gastal

Mais uma Feira do Livro que se encerra.

Para mim é sempre como uma festa. Anseio pela data, programo minha ida, me empolgo com as perspectivas, vou sem saber bem o que procurar, encontro amigos, conhecidos, antigos colegas de escola ou trabalho, começo a me sentir sufocada com tanta gente em volta, fico um pouco e já quero ir embora. Vou e volto várias vezes sempre com a mesma sensação.

A vantagem da Feira é que, mesmo sem companhia, nunca vou só.

Basta pisar no Centro, naquele espaço da Rua dos Andradas, compreendido entre a General Portinho e a Rua da Ladeira, para várias de mim me fazerem companhia.

Nesse trecho vivi muitas primeiras vezes. Primeira casa em Porto Alegre, primeiros passos, primeiras palavras, primeiros castigos, primeiras palmadas, primeiros amigos, primeiras memórias, primeiro dia de aula, primeiras letras, primeiras leituras, primeiras redações, primeira Feira do Livro (para mim), primeira sessão de cinema, primeiro soutien, primeira menstruação, primeiro batom, primeiro sapato de salto, primeiro amor, primeiro namorado, primeiro beijo, primeira desilusão, primeira dor devastadora, primeiro autógrafo na Feira do Livro em uma coletânea, primeiro autógrafo na Feira do Livro em um livro solo.

As primeiras vezes me acompanham sempre que transito por lá. Elas me invadem, às vezes trazendo sorrisos, em outras, relembrando tristezas.

Talvez por já não ter mais tantas possibilidades de viver primeiras vezes, sou cuidadosa com aquelas que fizeram de mim parte do que sou.

Desconheço os lugares por onde tanto andei. Faltam os cinemas de rua, o barulho dos bondes, as vitrines sem grades, Ao Belchior, o som das máquinas do Correio do Povo, o ritmo mais lento de uma cidade que era mais humana.

Meus filhos e netos tiveram suas primeiras vezes pelo Centro e pela Feira do Livro pelas minhas mãos. Eles conheceram o Centro que vivi. Acrescentei ao olhar deles as histórias que humanizam prédios e ruas não tão bem cuidadas. Circularam pela Feira do Livro percebendo como algo encantador e de tantas possibilidades. Manusearam livros, fizeram escolhas, levaram seus livros como troféus, brindados com dose generosa de sorvetes.

Minhas primeiras vezes viraram histórias ouvidas por eles pela primeira vez.

As primeiras vezes permanecem e, ao serem narradas, se transformam e produzem mudanças naquilo que carregamos como experiências. Dessa forma, elas não se esvaem pela idade, são constantes enquanto há vida.

Viverei mais uma primeira vez na Feira do Livro. Já estive lá criança, adolescente, adulta jovem, mãe, adulta, senhora, avó, idosa. Já fui como leitora e estive como escritora. Reunir todas de mim e viver a Feira como um lugar em que quero estar, sem pressa, será uma primeira vez que vai valer a pena viver. E fará da experiência uma festa do sino às rosas.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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