Menina ou menino?


Maria Avelina Fuhro Gastal

É uma menina!

Mais algumas semanas e virás ao mundo.

Serás mais uma entre tantas Marias, Anas, Patrícias, Marinas, Claras, Reginas, Isas, Luísas.

Te chamarão de princesa, bonequinha, docinho, bibelô. Em parte, por afeto, mas, também, para te enxergares frágil.

Fitas, babados, bonecas e panelinhas invadirão teu mundo. O treinamento para que sejas caprichosa, cuidadosa, boa mãe começará antes mesmo que te vejas como alguém.

Queria ser capaz de afirmar que podes tudo que sonhares e quiseres. Mentir para ti não te faria bem.

Lutarás pelos teus desejos sempre carregando culpas que não te pertencem.

Teu corpo será regulado por leis que te ignoram como pessoa.

Serás responsabilizada pela violência do outro sobre ti e encontrarão formas de te punir.

Podes ter sido gerada em um ato de amor ou de violência.

Se de amor, não estás imune ao ataque contínuo da sociedade às mulheres, mas talvez tenhas mais recursos para não sucumbir.

Se de violência, lembra sempre que a mulher que te gera não passa de uma menina violentada, e, ainda assim, punida. O castigo é a tua presença no ventre dela.

É um menino!

Mais algumas semanas e virás ao mundo.

Serás mais um entre tantos Pedros, Josés, Paulos, Joãos, Gustavos, Franciscos, Antônios.

Te chamarão de príncipe, herói, guerreiro, zagueiro, capitão. Em parte, por afeto, mas, também, para te enxergares forte.

Carrinhos, bolas, arminhas e espadas invadirão teu mundo. O treinamento para que sejas vitorioso, competitivo, imbatível começará antes mesmo que te vejas como alguém.

Queria ser capaz de afirmar que não podes tudo que sonhares e quiseres. Mentir para mim não me faria bem.

Lutarás pelos teus desejos sempre omitindo dores que te pertencem.

Teu corpo desconhecerá o limite no corpo de outra pessoa.

A tua violência sobre o corpo do outro punirá a vítima.

Podes ter sido gerado em um ato de amor ou de violência.

Se de amor, não estás imune ao ataque contínuo da sociedade às mulheres, mas talvez tenhas mais recursos para não repetir.

Se de violência, lembra sempre que a mulher que te gera não passa de uma menina violentada, e, ainda assim, punida. O castigo é a tua presença no ventre dela.

Meninas ou meninos não estão sendo protegidos pelo Estado. Estão sendo usados por crenças religiosas, pelo conservadorismo, pela moral hipócrita daqueles que pagam ou fazem o aborto em meninas estupradas de famílias com recursos financeiros. O objetivo é punir a mulher pobre mais uma vez, fazendo da criança vítima, mãe, quando deveria ser apenas filha, criança, menina.

Nasçam crianças geradas por crianças. Violentem a infância com a força da lei. Punam, persigam e matem aqueles que, autorizados a nascer de uma violência, fazem dela sua forma de sobrevivência.

A maior violência veste terno, bons vestidos, acessam microfones, ocupam espaços de poder, condenam com um voto e caneta milhares a uma vida que eles jamais experimentaram e, com certeza, não suportariam.





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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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