Modo zen ativado


Maria Avelina Fuhro Gastal

Antes de prosseguir a leitura, fiquem atentos a duas advertências.
1. Não criem expectativas elevadas não condizentes com as minhas possibilidades e metas.
2. Não subestimem minha capacidade em me tornar mais zen.

Com relação à primeira advertência, não esperem me ver sentada em posição budista, com as mãos voltadas para cima, de olhos fechados, entoando algum som inteligível. Nem em mais quinhentas reencarnações eu atinjo esse nível. Tampouco esperem que eu acompanhe o pôr-do-sol e bata palmas para ele, abrace árvores, me deleite com o canto dos pássaros ou com o assovio do vento. Pensem no possível, tipo não querer fazer o tempo render, assoviar e chupar cana ao mesmo tempo, estar aqui pensando que tenho que ir para lá ou chegar lá pensando que tenho que voltar.

Minhas metas são mais verossímeis, mas exigem muito empenho da minha parte. Por isso, estabeleci um método, que chamo de Intolerante Zen.

À primeira vista pode parecer antagônico associar intolerância a uma atitude zen. Isso porque vivemos orientados por rótulos que nos impedem de avançar nas contradições.

Explico meu método: estamos em tempos de intolerâncias. Algumas necessárias e urgentes, outras, frutos de tacanhice e ignorância. Como meu método lida com essa diferença? Simples. As urgentes e necessárias continuarão a ser importantes para mim. Extrema-direita, bolsonarismo, racismo, homofobia, misoginia, preconceitos de qualquer natureza não serão tolerados, o que muda é a minha forma de lidar com elas. Se fruto de tacanhice, ignoro, não vou perder minha tranquilidade com perversos e nem dar possibilidade de ataques a mim. Se for por ignorância, ativarei o modo zen em potência máxima para, suavemente, mostrar o outro lado da força, desmistificar frases vazias que repetem mentiras construídas ao longo do tempo. Tudo isso, com voz calma, sem subir em caixote de maçã para discursar e, acima de tudo, buscando em mim a modificação de “sem paciência” para “zen paciência”. Uma “Mestre Yoda” em formação.

Talvez vocês duvidem da minha potencialidade para essa transformação. Não os critico, nem os julgo, pois sei que contribuí com muita garra para essa imagem. Há em mim momentos de dúvidas e de medo do fracasso. Já faz parte da mudança a aceitação das suas dúvidas e o reconhecimento do meu papel ativo na construção de uma imagem tão distante da serenidade ou da paciência. É parte da jornada lidar com a descrença.

Ao longo do mês do outubro sei que passarei por uma etapa por demais desafiadora desse processo de intolerância zen.

Como sabemos, outubro é o mês rosa, dedicado à prevenção do câncer de mama. Não tenho nenhum incômodo com a cor rosa e apoio totalmente à causa. No entanto, há algo no meu cotidiano que exige um exercício constante de tolerância a uma alteração provisória por conta do mês. Bebo nas caminhadas, na academia, na dança e em casa, água com gás em garrafinhas de 500ml. A marca que compro tem garrafa transparente, com tampa verde, menos em outubro, quando trocam a tampinha por uma rosa. Enlouqueço. Não combina, destoa, parece deslocada. A cada momento de sede, respiro fundo, encaro a garrafa e sua tampinha e busco em mim toda a energia zen para superar o desafio.

Tenham certeza de que se eu superar essa intolerância sem perder a compostura, terei atingido um nível que me levará à próxima etapa de desenvolvimento pessoal e zenificação da vida. Aguardem notícias.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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