Verissimo


Maria Avelina Fuhro Gastal

Vivamente contra a morte, Verissimo foi alcançado por ela.

Sacana como só a morte sabe ser, fez um pacto com a vida para que ela se encarregasse de silenciá-lo antes do momento final.

Mal de Parkinson e AVC tiraram dele, e de nós, a possibilidade do encontro através das palavras, dos desenhos, da melodia, das histórias.

Verissimo mostrou-nos que a vida pode ser escancarada e criticada com elegância e leveza. Na ironia sutil, desmascarava aquilo que aceitamos como normal, desnudava nossas incoerências organizadas como sinais do nosso tempo e assimiladas como banais.

Sem estardalhaços, sem rompantes, sem palavras de ordem desequilibrou nossas verdades, ridicularizou nossos costumes, descortinou nossos segredos. Até hoje penso no que podem descobrir de mim se vasculharem o meu lixo.

Seus personagens tornaram-se personas. Sonho de qualquer aspirante a cronista e, até mesmo, de cronistas renomados. Minha mãe poderia ter sido a inspiração para a Velhinha de Taubaté. Não duvido que ela, junto ao Dr. Ulysses e dona Mora, estejam organizando uma reunião de boas-vindas ao recém-chegado para discutir com ele a resquícios da essência daquilo que foi o MDB.

Cobras me pareceram simpáticas. Muitas vezes quis abraçá-las, conversar com elas, agradecer por traduzir em poucas palavras aquilo que minha mente transformava em discurso inoperante.

Reconheci em mim atitudes compatíveis com as técnicas do Analista de Bagé, se não com os pacientes, com as pessoas de minha relação, sendo, às vezes, “mais grossa do que dedo destrocado”. A técnica do joelhaço tem lá seus méritos.

Verissimo pouco falava. Segundo ele, as outras pessoas é que falam demais. As crônicas e os textos deles também não se derramam em palavras desnecessárias. Elas estão na medida perfeita para o impacto que causam, nós é que escrevemos além do necessário. Verissimo traz para o texto, para a vida a premissa de que “o menos é mais”, qualquer coisa além é supérflua e redundante.

Em uma frase banal, absurda e inverossímil, Verissimo ludibriou a morte, muito antes dela enviar seus sinais: “Vou morrer sem realizar meu grande sonho: não morrer nunca”.

A morte é sacana, mas tola. Venceu o homem, o marido, o pai, o avô, o amigo, mas o artista derrotou a morte e viverá para sempre.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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