Lugar de vó


Maria Avelina Fuhro Gastal

Assim como acontece na parentalidade, as expectativas sociais e culturais diferem para os papéis a serem desempenhados pelos avôs ou pelas avós.

Vivencio a experiência de ser avó sem compartilhá-la com a presença física de um avô. A presença emocional sempre existe, mesmo na ausência. Só posso falar a partir do lugar que ocupo, o de vó.

Tenho lido textos que ainda reproduzem o imaginário de avó recatada e do lar. Cabelos grisalhos presos em coque, roupas comportadas sem nenhum atrativo ou vaidade, vida esvaziada preenchida pelos netos, cotidiano entre tricôs e bolos. Se é isso que define uma avó, falho em todos os requisitos.

Outras postagens afirmam que as avós amam mais os netos do que aos próprios filhos. Desconheço essa métrica do amor. Não amo por “combos”, filhos, netos, família, amigos. Amo pela especificidade, por aquilo que construímos juntos, pelo respeito às diferenças, pela história vivida com a pessoa, não pela classe a que ela pertence. Assim, nenhum amor é igual e, se diferentes, incomparáveis.

Mas amo mais quem sou como avó do que quem fui como mãe. Mais disponível, mais pacienciosa, mais atenta às descobertas, mais presente quando juntos, mesmo que em quantidade o tempo seja muito inferior. Ser avó coincide com um momento de menos compromissos profissionais, mais flexibilidade de horários, maior possibilidade de ignorar o entorno e estar apenas ali, com os netos.

Mais tolerante, sem que falte limite. Reconhecer que, mesmo sendo avó, sou eu a adulta da relação e cabe a mim, também, seguir as regras estabelecidas pelos pais e estabelecer aquelas necessárias na ausência deles. Limite é cuidado, proteção e amor.

Amo ser avó. Estar com eles, construir nossa intimidade e confiança, perceber o quanto me enxergam como proteção, afeto e presença, rolar no chão, sentar entre eles para contar uma história, para ver um filme ou simplesmente para acarinhar e ser acarinhada, ouvir seus perrengues, queixas, conquistas e desejos, escutar daquelas vozinhas “eu te amo, vovó” ou a certeza de que vou sentir “super, ultra, mega saudades” porque estarão fora por quatro dias.

Jamais serei a avó da memória de cheiro de bolo ou do blusão tricotado. Quero ser lembrada pela presença com afeto, pelas brincadeiras, pela posição de goleira no corredor do apartamento ou na praça, pelas viagens próximas ou distantes, pela “melhor massinha do mundo”, pelo chocolate guardado no armário para a sobremesa no final de semana, pelos livros lidos, pelas histórias mil vezes recontadas, pelo embolamento de três em uma cama para dois.

Sou a avó que quero ser porque meus netos têm pais que me enxergam além de uma avó. Sabem que tenho vida própria, projetos, sonhos e que vivo um momento em que sou dona do meu tempo e dos meus desejos. Mas também sabem que podem contar comigo. Sou auxílio, não obrigação. Na ajuda, sou compromisso, não falho, me organizo para viver o que chamo de “meu dia de vó” e adoro.

Com tudo que tem sido dito sobre ser avó, concordo que é um reviver da infância dos meus filhos sem a pressão do dia a dia, sem a culpa pela indisponibilidade. É o tempo simplesmente de ser, de estar, inteira.

Cada uma de nós vai construir a avó que quer ser. É decisão pessoal. Jamais deveria ser ditada pela sociedade, muito menos pelos filhos. Escolha a ser movida pelo prazer, nunca pela culpa. Se não partir de nós, veremos azedar a mais doce relação que podemos construir.




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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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