Maria Avelina Fuhro Gastal
Alimentamos a Razão com conhecimento. Buscamos textos, ensaios, pesquisas, documentos históricos, teses para avançar em nossa forma de enxergar o mundo, de compreender a realidade, de construir teorias que deem conta de fenômenos que não dominamos. Ampliamos a perspectiva no debate e na contraposição respeitosa das diferenças e das nuances culturais que compõem a forma de estarmos no mundo.
A Razão exige disciplina, dedicação, disponibilidade para, tal qual em um mosaico, encaixarmos de forma harmônica elementos que parecem não dispor de semelhanças para a sua união. Se pensarmos em um caleidoscópio, há sempre a possibilidade do diferente se não nos furtarmos de mantê-lo em movimento.
A Emoção transborda. Não há nela pontos de equilíbrio que nos permita controlá-la. Podemos contê-la, ignorar sua presença, mas, uma vez liberada, ela se torna maior do que nós e desafia até a Razão.
Em 2013 me aproximei da escrita. Busquei oficinas de escrita criativa para aprender e compreender o que fazia com que a junção de palavras para contar uma história fosse mais do que um simples texto. Desde lá, fiz vários cursos, alguns curtos, outros longos, com diferentes escritores e professores de literatura, aumentei o número de livros lidos, busquei textos teóricos que respaldassem a minha escrita. Faço parte de um grupo de estudo em literatura e escrita em que teoria, crítica literária, leitura de clássicos e de contemporâneos embasam um olhar aguçado na busca da arquitetura e da forma contida em cada obra, seus efeitos, erros e acertos. O debate se enriquece pela diversidade de formação e de faixa etária dos integrantes do grupo.
Não me limitei à literatura. Busco mais conhecimento na área do cinema, das artes em geral, da história e da política. Penso que essas cinco áreas são as que melhor nos falam sobre a sociedade, sua formação e implicações resultantes.
Talvez, hoje, eu olhe de forma diferente tantas coisas que antes me pareciam certezas. A dúvida, o questionamento, a crítica me impulsionam a buscar a qualidade das informações e a autenticidade e posicionamento ideológico das manifestações culturais.
Dito isso, tenho que admitir que, por muitas vezes, a Emoção ignora a Razão e me faz ter na memória trechos de livros, cenas de filmes, reações emocionais que desbancam qualquer racionalidade.
Lido há cerca de 45 anos, uma passagem de Brida (Paulo Coelho!!) ainda causa efeitos em mim. Em um determinado momento, o pai, ao ser questionado por Brida, enquanto ela molhava apenas os pés, como era a sensação de entrar no mar. Ele a tomou no colo e a atirou na água. Só sabemos a real sensação se entrarmos em algo.
Gabo é um dos meus escritores favorito. Apesar da qualidade de sua narrativa em todos os aspectos da escrita, o que trago como maior lembrança de seus livros não tem a ver com a técnica. Não há história de amor mais comovente do que a de Florentino Ariza e Firmina Daza. Permanece em paralelo nas suas vidas, sem nunca se extinguir.
No cinema, na história de Totó, Alfredo e do Cinema Paradiso me reencontro com a minha infância e com o meu pai. Lembro do cheiro de queimado quando o filme rompia e do barulho da máquina dentro da cabine de projeção, de onde assisti a alguns filmes impróprios para a minha idade, segundo o censor, mas não para meu pai. E a cena final que desfila encontro, paixão, desejo, entrega escancara que o amor escandaliza mais do que o horror.
Não sei quantas vezes abri a porta daquele carro, naquela sinaleira, para que Francesca fosse ao encontro de Robert Kincaid e vivesse aquele amor sem culpas. E tantas outras vezes que revi os depoimentos de casais sobre seu encontro na vida, enquanto Henry e Sally ignoravam que tanta cumplicidade, facilidade de comunicação, disponibilidade para o outro eram mais do que uma amizade ou afinidade.
Por mais que eu saiba e entenda que a tornozeleira eletrônica do inominável foi devida aos sinais inequívocos de intenção de fuga, de alguma forma, senti que 2020 estava sendo revisto. Todas as risadas, deboche, descaso, insensibilidade frente a tanto sofrimento causado pela Covid-19, menosprezado e desrespeitado, estavam contidas naquele instrumento de limitação de liberdade.
A Razão fala com o intelecto, a Emoção com a nossa humanidade.
Quando busco a Razão, me oriento por minhas crenças e projetos. Quando tomada pela Emoção, revisito a minha história e denuncio as minhas limitações.
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