Looping temporal


Maria Avelina Fuhro Gastal

Na tentativa de domar o tempo, estabelecemos o calendário.

Para controlar nossa existência, dividimos o ciclo vital em fases.

No curso de nossas vidas, calendário e ciclo vital, se encontram na passagem do tempo, se desencontram nas nossas experiências, traumas, vivências, expectativas, possibilidades.

Pelo que sempre foi contado pelos mais velhos da família, fui um bebê que chorava muito nos primeiros meses, só pegava no sono passeando no carro do meu avô paterno, a 15km por hora, pelas ruas de Pelotas, sem que ninguém falasse, tossisse, espirrasse ou respirasse dentro do carro. Como viemos para Porto Alegre quando eu tinha seis meses, sem avô aqui, sem carro, acredito que não me restaram opções a não ser dormir no berço de um apartamento JK, no centro da cidade, em cima da confeitaria do Cinema Cacique.

Ainda pela voz de pais e tios, fui uma menininha alegre, exibida, que adorava cantar “Catita” pelos corredores do Hospital Beneficência Portuguesa, onde meu irmão nasceu, quando eu tinha um ano e oito meses.

Minhas primeiras memórias nada trazem dessa menininha, nem chorona nem exibida. Talvez lá pelos cinco anos, pela primeira vez, calendário e ciclo vital se desorganizaram. Tímida, retraída, insegura, sempre muito atenta aos adultos em meu redor, me sentia inadequada e incapaz de cantar Catita. Para piorar, meu primeiro papel em uma encenação escolar, foi de abacate. Verde, imóvel, sem sair de cena, suportando a plateia olhando na minha direção o tempo todo.

Dos cinco aos dez anos fui sombria, triste, velha. A partir dos dez anos, conjuguei minha velhice em casa com a possibilidade de viver a minha idade no Colégio Sèvigné, nas reuniões dançantes, nas gincanas e piqueniques do colégio, nas conversas intermináveis com amigas, nas sessões de cinema em turma. Fui equilibrando essas dicotomias até os dezesseis anos, quando entristeci de vez.

A tristeza encontrou eco no sentimento de inadequação e guiou o que hoje chamo de escolhas sem escolha. Parecia que eu só merecia o menos para que coubesse em mim. Fui sendo levada por esse sentimento, sem perceber que não era uma velha, mas uma adolescente, e acabei optando pelo envelhecimento.

Aos vinte anos, tinha quarenta ou mais. Aos trinta e poucos cheguei aos setenta. E ali fiquei por mais de uma década.

Não sei precisar em que momento o ciclo vital e o calendário começaram a se aproximar. Talvez pelos cinquenta anos, mas de lá para cá, o desencontro recomeçou.
Bem mais do que sexagenária, me sinto jovem. As rugas, o cabelo grisalho, a dor no joelho em alguns momentos me alertam para a minha real idade. Ouço e ignoro. Sou o que me sinto ser.

Sei que tenho menos tempo para viver do que já tive, que tenho mais riscos de queda e fraturas e de doenças inesperadas, que tenho mais chances de perder amigos ou de eles me perderem, mas sei também que tenho mais apreço pelas amizades e pelo tempo que desfrutamos juntos, menos destinos que terei tempo de visitar, tenho mais tempo no cotidiano para ir onde eu quiser, lerei menos livros do que tenho para ler, leio com mais atenção focada naqueles que me encantam ou desacomodam, escreverei menos textos, crônicas, contos, publicarei menos livros, mas, aqueles que eu escrever e publicar serão mais honestos e menos censurados por mim.

Por muito tempo fui prisioneira de mim, hoje não me tornarei prisioneira de calendário ou etapa do ciclo vital. Vou caminhar, fazer academia, pilates, dançar, rolar no chão com os netos, me aventurar pelo mundo, seja longe ou perto, encontrar amigas e amigos, aceitar e fazer convites, respeitar as minhas vontades, não me sujeitar a menos do que mereço.

Para cada mais ameaçador, há possibilidade de menos riscos. Para cada menos possibilidades, há mais urgências nas possíveis. Sou dona da minha vida, das minhas vontades e do meu desejo. Eles me guiarão e transformarão o que há de vir em boas memórias quando o corpo me obrigar a parar.

Pasmem, sou hoje mais jovem do que fui aos vinte anos e tem sido muito bom.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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