Maria Avelina Fuhro Gastal
A realidade produziu em mim um efeito paralisante.
Embora não faltem assuntos para uma crônica, o teor sempre me pareceu pesado demais, distanciando o texto de uma das características do seu gênero literário que é a leveza.
Por outro lado, também é esperado da crônica uma adequação ao seu tempo, uma espécie de flagrante do cotidiano, de uma época.
Sophia de Mello Breyner escreveu:
“Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.”
Parece que essa é a nossa época. Fugir dela é me renunciar como pessoa. Como enfrentá-la sem sucumbir?
Três assuntos têm se revirado em mim, buscando as palavras para expressar minha indignação. Elas não existem. Usarei as que possuo, mesmo sabendo que são insuficientes.
Assunto 1: A agressão misógina, sexista, racista dirigida à Ministra Marina Silva. O desrespeito à figura pública, a sua história na defesa do meio ambiente, ao cargo que ocupa sintetizada na expressão tão conhecida por aqueles vistos como subalternos pelos poderosos: Ponha-se no seu lugar. Ela está no lugar que lhe pertence. Mas para homens brancos, engravatados, representantes da classe dominante, o lugar dela, como negra. seria na senzala atendendo as vontades do senhorzinho; como mulher, seria em casa, lavando, cozinhando, limpando, esfregando o chão para que os pés enlameados do marido deixem sua marca de posse e desvalorização; como convidada para uma reunião de homens, que se sentisse honrada pela concessão e aceitasse calada a desqualificação que lhe era imposta.
Assunto 2: O extermínio em Gaza. Não há outra palavra que defina o que está acontecendo em Gaza. Dizê-la faz com que sejamos acusados de antissemitas. Não sou. Repudio a perseguição nazista aos judeus e o silêncio das outras nações enquanto o extermínio avançava, assim como repudio os bombardeios a alvos civis, a morte lenta pela fome em Gaza e o silêncio das outras nações.
Assunto 3: Na primeira noite de frio intenso em Porto Alegre, dois moradores de rua perderam a vida. Morreram de frio. O inverno não chegou, o frio tende a piorar, nenhum anúncio de política pública foi feito para minimizar o sofrimento de quem vive nas ruas. O que vi foi caminhões a serviço da Prefeitura fazendo uma “limpeza” na cidade, recolhendo colchões e remendos de cobertores, enquanto o governador faz vídeo celebrando o frio e as maravilhas na nossa serra.
Três assuntos que parecem desconexos, mas uma linha resistente os une. O alinhavo está no capitalismo vitorioso, que precisa para a vitória de alguns da derrota de muitos. Desmatem tudo, liberem a exploração dos recursos naturais, vendam armas, aumentem o PIB, invistam no turismo, higienizem as cidades, o mundo, exterminem os que atrapalham, isolem os que se revoltam, os calem. Matem.
Não temos a opção de sucumbir. Isso nos faria aliados do terror e da fúria capitalista. Ainda enxergamos pessoas e não somente cifrões.
Em março de 2007, um bombista suicida se fez explodir na rua Al-Mutanabbi, em Bagdá, matando trinta e oito pessoas e ferindo mais de cem. Nessa rua há um número impressionante de livrarias e, nas sextas-feiras, à noite, os livreiros colocam os livros no chão, onde leitores e escritores partilham experiências e leitura. Depois do ataque suicida, esperava-se que os livros não fossem mais vistos como possibilidades de convivência e troca entre diferentes pensares e credos. Em 2019, a Feira do Livro de Bagdá teve mais de um milhão de visitantes. O horror não fez sucumbir a força da literatura.
Eunice Paiva, mesmo após o desaparecimento do marido Rubens Paiva, torturado e morto pela ditadura militar no Brasil, em cena do tocante filme Ainda estou aqui, diz ao fotógrafo que pede uma expressão mais séria no rosto dos filhos, “ Nós vamos sorrir”.
Denunciar, renascer, sorrir, fazer da arte, da vida um espaço além da massificação, do preconceito, do terror talvez pareça pouco frente ao poderio representado pelo dinheiro, mas são armas que eles desconhecem, pois elas pertencem ao humano e, a isso, eles renunciaram.
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