Maria Avelina Fuhro Gastal
“Deus ajuda quem cedo madruga”.
Fosse esse ditado popular verdadeiro, milhões de trabalhadores e trabalhadoras que acordam antes do sol raiar, caminham entres becos, ruelas e calçadas irregulares, muitas vezes cobertas de lama, esperam por longos minutos por um transporte coletivo em péssimas condições de conservação, sempre abarrotado de gente, teriam de deus toda a ajuda necessária.
Não é de ajuda que precisam, muito menos de deus. O deus de cada um é opção pessoal, justiça social não tem a ver com o divino.
“O trabalho dignifica.” O que dignifica é a valorização das mãos que realizam o trabalho, o pagamento de salário justo que permita o acesso ao alimento saudável, à medicação necessária, à moradia salubre, com sistema de rede de esgotos, iluminação e segurança pública, a bens e serviços culturais e educacionais, ao descanso despreocupado por ter, além das necessidades básicas, as humanas atendidas.
Primeiro de maio, Dia do trabalhador e trabalhadora. Greve de trabalhadores e trabalhadoras da maior rede de supermercados de Porto Alegre, a rede Zaffari. O mesmo Zaffari que provoca nossas emoções nas campanhas publicitárias de Natal e Dia das mães, mas ignora o respeito à vida daqueles que para a rede trabalham. No século XXI, uma das pautas de reinvindicação, além das relacionadas ao número de horas trabalhadas, folgas em finais de semana, é a possibilidade de flexibilização de uso do banheiro, sem horários pré-definidos pelo patrão.
Minha geração cresceu acreditando que trabalhar muito era a personificação da dignidade e sucesso. Fizemos crescer o bolo que alimentou e engordou o Capital, sem jamais ser dividido com quem o produziu. Sacrificamos espaços, momentos e horas. Casa, família, filhos, amigos, lazer, diversão foram apêndices que, por vezes, pareciam impedir nosso sucesso e realização profissional, medidos em stress, úlceras, hipertensão, avcs, infarto e morte.
Hoje, pensam que a saída é ser patrão de si mesmo, empreender.
Nem nós, trabalhadores e trabalhadoras de ontem, nem eles, empreendedores e empreendedoras de hoje, questionamos aquilo que foi, e é acumulado, pelos detentores do Capital às custas do nosso trabalho. Somos cordeiros, não de deus, mas de um sistema que nos explora e descarta.
Viva a sua crença, mas não permita que ela faça de você mais um no rebanho de cegos e surdos que elogiam, defendem, idolatram e elegem pessoas que fingem agir em sua defesa. Acredite, eles mentem. Usam vocês como meio de se manterem no controle de todos, eliminando direitos, esvaziando reinvindicações, oferecendo as migalhas do bolo com que se lambuzam, tendo a certeza de que vocês lamberão os beiços satisfeitos, enquanto a eles é servido um banquete.
Vivam a sua fé sem permitir que a usem para ludibriá-los. E cante. Sugiro Cazuza. Esqueça que era gay, drogado e morreu de AIDS, características que ensinam você a condenar e odiar pessoas como ele, enquanto toleram manipulações e distorções de sua fé. Ele canta a verdade que seus mitos querem que você desconheça.
Brasil (compositores: Agenor Neto, George Alberto Heilborn Israel, Nilo Romero)
Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer
Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha
Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio
O nome do teu sócio
Confia em mim
Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer
Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Prá só dizer sim, sim
Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio
O nome do teu sócio
Confia em mim
Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair
Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio
O nome do teu sócio
Confia em mim
Brasil
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