Bagagem


Maria Avelina Fuhro Gastal




Ano 1850.: cinquenta e oito dias de viagem em uma embarcação à vela.

Ano 2025: dois voos, um doméstico com conexão em São Paulo para o voo internacional. Da porta de casa ao hall do hotel, vinte e três horas.

Na primeira viagem, em 1850, meu bisavô, Amadeu Gustavo Gastal, aos vinte e um anos, partiu de Paris, acompanhado da jovem esposa, sua prima, Marie Claire Marlin e de seu pai, François Desiré Gastal. Veio atraído pelas possibilidades e promessas existentes na nova terra brasileira.

Em 2025, três descendentes de Amadeu, eu, minha filha e minha neta, partimos para Paris. Não buscávamos possibilidades. Queríamos a experiência de estarmos juntas na cidade onde nossos antepassados viveram, percorrer suas ruas, encantarmo-nos com o tanto de história e beleza que Paris sempre fornece.

Talvez meu bisavô tenha trazido baús. Vinha para ficar. Nos baús, a maior bagagem era o espírito aventureiro, a coragem de enfrentar um mundo novo tão diferente de Paris.

Nossa bagagem estava limitada em 23kg. Não utilizamos toda a carga disponível. O que levávamos e trouxemos não se mede em quilos, mas em vivência.

Três mulheres, 66, 38 e 10 anos. Três gerações que tem o afeto como a principal costura de seus laços.

Eu, “la matriarche” levei na bagagem de mão o livro Franceses no Rio Grande do Sul. Antes de qualquer monumento histórico, entendia que minha filha e minha neta precisavam saber um pouco mais de parte de suas origens. Entre Porto Alegre e São Paulo lemos trechos referentes ao meu bisavô, suas conquistas e importância no estado naquela época.

Paris sempre encanta. Muito de mim queria mostrar a elas tudo que eu já tinha visto e amado. Tornar nossa uma experiência que tinha sido só minha.

Essa viagem foi isso, a construção de mais um elo em nossa relação.

Se Paris sempre me encanta, as reações e os comentários delas suplantaram qualquer encantamento meu pela cidade. Fizeram de Paris uma festa. Uma festa nossa, um brinde à vida e ao prazer de estarmos juntas.

Alice, aos 10 anos, me mostrou que a busca pelo conhecimento não precisa matar a vaidade. Inteligência, curiosidade, cultura, vontade de aprender podem conviver em harmonia com vitrines bonitas.

Renata, aos 38 anos, me ensinou que o compromisso e a disponibilidade não se confundem com a obrigação. Sem ela, eu teria errado as linhas de metrô, as direções dos trens.

Juntas, Renata e Alice, me mostraram o quanto a ligação delas é forte. Forte, sem construir muralhas. Havia entre elas espaço para mim.

Se felicidade, satisfação e alegria fossem pesadas, eu teria que pagar por excesso de bagagem no retorno. Pagaria sem reclamar, nessa viagem ou em qualquer outra em que o prazer da viagem estivesse muito mais na companhia do que no lugar visitado. Paris com elas foi a perfeição de viagem.


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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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