Maria Avelina Fuhro Gastal
Quando Drummond publicou “José” – 1942 – o mundo estava em guerra.
Os críticos analisam o poema como uma ilustração do abandono e da solidão do indivíduo na cidade grande, da sua falta de esperança e de sua sensação de não saber que rumo tomar. José é entendido como indivíduo coletivo e, ao substituir José por você, o autor estaria falando com cada um de nós.
Nesses 83 anos que separam a publicação de “José” dos nossos tempos, o mundo passou por muita coisa.
Vivemos o fim da Segunda Guerra Mundial, a reorganização geográfica e territorial da Europa (duas vezes), Guerra Fria, Guerra da Coreia e do Vietnã, Ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos, Apartheid, conflitos no Oriente Médio, fome em diversos países africanos, asiáticos, sul e centro americanos, conquista espacial, diversas fases do capitalismo, inúmeras crises mundiais, recessão, ataques terroristas, queda do Muro de Berlim, fim da União Soviética, guerras religiosas, crises ambientais e climáticas, aquecimento global, terremotos, tsunamis, enchentes. Impossível listar tudo vivido em oito décadas.
Passamos de um mundo que se comunicava por ondas de rádio para um mundo onde a velocidade e o volume de informações são imensuráveis. Abrimos nossas vidas nas redes sociais. Nossas casas deixaram de ser um local seguro para se transformarem em locais onde discursos de ódio, darkweb, hackers identificam em nossos perfis as possibilidades de ataque ou persuasão.
Não bastasse tudo isso, acompanhamos, alguns estarrecidos, outros empolgados, o recrudescimento de ideologias fascistas, totalitárias, de supremacia branca e econômica, de intolerância ao diferente, de perseguição a grupos desvalidos. Mais estarrecedor é o fato de terem tantos seguidores a ponto de serem conduzidos ao poder pelo voto.
O José de agora somos eu e você. Somos todos que se veem solitários e assustados com aquilo que o mundo vem se tornando. O que fazer para não perder a esperança?
Talvez sejamos formigas em meio a tamanduás. Embora eles sejam os predadores, são eles os ameaçados de extinção e não as formigas. Formigas vivem em colônias, são insetos sociais, dividem tarefas e apresentam metamorfose completa. É essa metamorfose que fará de nós sobreviventes ao terror que tenta se instalar.
Nossa colônia é o mundo, nela cabem todos, as diferenças são respeitadas. Por sermos sociais, rimos, brincamos, choramos, acolhemos. As formigas que não se querem formigas estarão suscetíveis a se deixar engolir pela enorme língua dos tamanduás que, em um discurso de grandeza, faz com que elas se aproximem para, então, devorá-las.
Somos José, não cansamos, não morremos. Se silenciados, buscamos a voz para protestar, para gritar. Sabemos que o mar ainda não secou, que a festa pode estar suspensa, mas não acabou. Não perdemos o discurso, não esquecemos do carinho, encontramos o riso, aquecemos a noite e vivemos o dia.
E agora, José? Agora é o momento de não permitir que eles nos deixem sem resposta. Somos duros e ternos. Nossa resposta é a vida e ela presta. Sempre.
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