Beleza não põe mesa


Maria Avelina Fuhro Gastal

O dito popular já preconiza que beleza não põe mesa.

A origem seria “beleza não se põe à mesa” ou, ainda há uma forma mais antiga que diz: “Beleza e formosura não dão pão nem fartura.”

Seja como for, beleza não deve ser usada como qualificação, embora vivamos em tempos de culto ao corpo, de procedimentos estéticos, de indústrias de cosméticos, de moda, de enaltecimento de modelos e artistas perfeitos, de filtros de imagem.

São as mulheres o alvo das cobranças de padrões de beleza, seja pela idade, pelo peso, pelo tipo de fio e cor de cabelo, pela forma como se vestem. Homens são considerados atraentes com cabelo grisalho, com nariz proeminente, com cicatrizes glamourosas, de jeans, de terno, de bermuda e camiseta, desde que a barriga não esconda o cós.

Há uma semana repercute a fala do presidente Lula ao dar posse à Gleisi Hoffmann como Ministra das Relações Institucionais, quando afirmou ter escolhido “uma mulher bonita”.

No período de Carnaval, o ex-presidente perverso afirmou que “as petistas são feias e incomíveis”.

Analisando o contexto, Lula usou de ironia ao destacar a beleza de uma mulher petista como contraponto à fala do inominável.

A compreensão da ironia requer conhecimento prévio, capacidade de análise, percepção da inversão da lógica. Tem sido demonstrado que nos estágios iniciais de demência a pessoa perde a capacidade de reconhecer ironia e sarcasmo.

Quando o inominável destilou seu preconceito e machismo contra as mulheres, a repercussão foi mais branda do que quando o presidente Lula disse ter feito a escolha de uma mulher bonita. Não me surpreende. Da extrema direita é esperado todo o tipo de preconceito, ofensas, desmoralizações, desrespeito aos diferentes. Cabe aos outros campos do pensamento humano estar atento para barrar toda a forma de opressão.

Em uma sociedade com alto índice de feminicídio, de estupros, com grande diferença salarial entre os gêneros é inaceitável qualquer forma de desvalorização da capacidade intelectual das mulheres.

Em nenhum momento foi referida a escolha de Haddad para ministro da Fazenda pela sua beleza (eu o acho mais bonito que a Gleisi). Ministros são escolhidos por sua capacidade técnica, de articulação política, por acordos de governabilidade. Com base nesses critérios, Gleisi foi escolhida e é isso que deve ser ressaltado.

Queremos que nos digam que somos ou estamos bonitas? Claro que sim.

Queremos que citem a nossa beleza em detrimento a todas as outras capacidades? Claro que não.

Entre o elogio afetuoso e o desrespeito a nossa história há um fio tênue, onde não cabem ironias.

E eu ainda fico com dúvidas me corroendo:

1. Por que se permitir ser pautado pelo perverso?
2. Por que trazer para si os holofotes do debate sobre a desvalorização da mulher na sociedade, aliviando o peso das palavras do inominável?
3. Por que contribuir para desviar o foco sobre a situação do perverso frente à justiça brasileira?
4. Por que dar munição à mídia e às redes sociais?
5. Por que dar importância à fala tão abjeta e própria daquele infeliz?

Mesmo que irônica, a fala de Lula foi inadequada. O discurso foi em uma solenidade governamental, institucional, republicana e não em um comício partidário ou eleitoral. Ali estava o presidente de todas as mulheres do país, das bonitas, das feias, das violentadas, das assassinadas, das exploradas.

Há tanto para ser dito sobre Gleisi e a sua luta na recente história política do país. Ser bonita não teve nem papel coadjuvante nessa trajetória.

Beleza não põe mesa e não é currículo.













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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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