Maria Avelina Fuhro Gastal
Lá pelos meus onze, doze anos zerei uma prova de inglês. Havia estudado, mas a única palavra que fazia sentido para mim naquele idioma era yellow. Não me perguntem o porquê.
Apavorada, comecei o curso de inglês no Yázigi.
No nível intermediário, trabalhamos um texto que contava a história do Oscar. Quando da criação da estatueta, enquanto o grupo com representantes da indústria cinematográfica discutia o nome que dariam ao prêmio, uma funcionária de serviços gerais, responsável por atender aos pedidos de água, scotch, chás, ao olhar para a estatueta no centro da mesa de reuniões, teria dito “It looks like my uncle Oscar.” (Se parece com o meu tio Oscar).
Lembrei dessa história ontem ao assistir à cerimônia de premiação.
Não sei se é verdadeira ou se é algum daqueles mitos que se criam, mas encontrei conexões com o momento vivido por mim e por todos que torciam pelo reconhecimento ao cinema brasileiro.
Assisti sem legenda ou dublagem (muito distante daquele zero traumático, thank Ms. Petrilli). Em uma cerimônia repleta de glamour e luxo, no Estados Unidos, o prêmio recebido leva o nome do tio de uma subalterna, provavelmente afrodescendente ou latina, com possibilidade de ser imigrante ou descendente de pessoas escravizadas.
O melhor filme internacional é brasileiro, muitas vezes quintal dos Estados Unidos, e traz a história do desaparecimento e assassinato de Rubens Paiva, torturado pela ditadura civil-militar apoiada por aquele país e por uma significativa parcela da nossa sociedade civil (empresários e classe média). No centro da história a figura de uma mulher que, apesar de todo o horror vivido, lutou pela sanidade de sua família e pela verdade sobre a morte do marido e por uma sociedade mais igualitária e justa.
Talvez o filme devesse ter concorrido na categoria de roteiro adaptado, ao transformar as lembranças de uma criança entrando na adolescência, contadas por ela em um livro na idade adulta, em cenas tão intensas pelos seus silêncios, olhares, sorrisos, cotidiano. Momentos vividos por todos nós em algum momento da vida, que poderiam ter sido trucidados por um Estado truculento e autoritário.
O mal de Alzheimer pode ter apagado a memória de Eunice Paiva, mas não eliminou o seu passado. A negação da tortura no Brasil protege assassinos, mas não elimina a dor das ausências.
Ainda estou aqui traz para o presente e reinsere na nossa história as figuras não só de Rubens e Eunice Paiva, mas também de todas as outras vítimas, vivas ou mortas, que não podem ser esquecidas. Esquecer é permitir que se repita. Nunca tivemos tantas mostras de como eles também ainda estão aqui, apoiados, novamente, por parte das Forças Armadas, do empresariado, do agronegócio, da classe média deslumbrada. Muitos ignoram que o risco é deles também. Em um Estado autoritário e repressivo não existe habeas corpus prévio nem garantia de imunidade.
Não bastasse toda a força de denúncia do esquecimento, ou negação, de tudo que vivemos como povo naquele período, o filme mostra a força de uma mulher ao enfrentar o impensável. Fernanda Torres é Eunice Paiva. Sua interpretação não explode, não se sobrepõe à personagem que interpreta, trata com respeito a dor e com comedimento todos os sentimentos que transbordam em olhares e silêncios. E não podemos jamais esquecer que foi Dilma Roussef quem instalou a Comissão da Verdade.
Ouvimos, dizemos que a arte salva, mas nem sempre temos clareza de como ela pode operar. Um livro, transformado em filme, nos mostrou a força que pode ter as expressões artísticas no enfrentamento de nossas cicatrizes e feridas históricas.
O passado ocupou o presente e mostrou o quanto ainda não passou.
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