RIP, Mr. Wallace


Maria Avelina Fuhro Gastal

“Dizem que sou louca por pensar assim”, mas eu gosto do verão.

Gosto dos dias iluminados, do sol na pele, das horas a mais de dia, no convite que a estação nos faz à vida.

O exagero me atrapalha um pouco, mas menos do que um frio cortante que faz doer todo o corpo.

Mas, nestes últimos dias, pensei que o calor extremo tinha derretido alguns dos meus neurônios, ou vários deles.

Fiz compras das quais não me lembro, cometi tantas infrações de trânsito que minha CNH está suspensa, tive minhas contas no Banco Bradesco e Santander hackeadas, sem nem ao menos me lembrar de tê-las aberto.

Por sorte, estamos a um passo da informação ao acessar o nosso e-mail. Não fosse isso, quanto tempo eu levaria para perceber o quanto devo de taxas aos Correios por compras on line? Pior, estaria dirigindo meu carro sem preocupação, sujeita à prisão por tantas multas e, ainda, com a carteira suspensa. De quanto seria o rombo nas minhas contas bancárias antes que eu percebesse a fraude?

Agradeço aos Correios, ao Detran, aos SACs dos bancos que tão prontamente me alertam sobre a situação descontrolada em que me encontro.

Terá sido o calor que me fez cometer insanidades? Comprar feito louca, dirigir como uma irresponsável, abrir contas para usufruir dos cheques especiais não condizem com a imagem que tenho de mim. Me desesperei. Não tanto pelo quanto devo, mas pela pessoa que me tornei.

Em meio ao desespero, uma graça que só pode ser divina. Mr. Wallace, que não conheci, faleceu (que deus o tenha) e, entre todas as pessoas no mundo, escolheu a mim como herdeira, em dólares.

Mr. Wallace, sei que minhas palavras não chegarão ao senhor, mas responderei ao email de seu representante legal, tão gentil, educado e polido, agradecendo por ser o portador de tão boa notícia quando tudo em minha vida parecia estar fora de controle.

Proporei a ele que eu vá pessoalmente a Tacoma para dar andamento aos papéis. Tenho receio de mandar por via eletrônica, há muitos golpistas querendo roubar nossos dados. Tenho certeza de que o senhor entenderia minha preocupação. Penso em ir em maio, quando esquenta aí e esfria aqui. Enquanto isso, pedirei que seja paga por ele a taxa de renovação do meu Visto, absurdamente cara para quem ganha em reais. Claro que o valor poderá ser descontado do que me é devido.

Ganhei fôlego para aproveitar o verão, sem esquentar a cabeça. Até me permito esse trocadilho infame porque a vida fica mais leve nessa estação, ainda mais recheada de dólares.

Se ainda acham que sou louca por gostar do verão, respondo que se vocês rezam muito, “eu já estou no céu”. *

RIP, Mr. Wallace and thank you for ever.


• Balada do louco – Rita Lee e Arnaldo Baptista

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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