Cataclismo criativo


Maria Avelina Fuhro Gastal

Há 15 dias não publico nada. Nesse período, fui do céu ao inferno, mas ressuscitei na sexta-feira (ontem) e, hoje, já me sinto viva.

Os primeiros dez dias foram de férias. Perfeitos. Muita caminhada e leitura, alguns reencontros, muitas risadas, conversas e reflexões. Assisti a filmes dublados sem surtar, comi a pior casquinha de siri da vida sem azedar meu dia e fui recompensada pela melhor casquinha de siri da vida na última noite.

Incorporei a leveza no meu viver. Ri de mim mesma, comprei roupas que não precisava só porque me gostei nelas, chupei um picolé sem açúcar e devorei uma metade de sobremesa com muito açúcar. Conversei com estranhos.

Fui à praia, e fiquei nela, por duas vezes, sem reclamar, mesmo tendo permanecido até as 15h30. Marca impensável para mim. Falei pouco sobre o meu sonho de ter espaços à beira mar calçados, livres de areia, com acesso direto a uma piscina gostosa em vez de um mar gelado. Molhei os pés naquele gelo, o que me obrigou a tirar as meias e o tênis e pisar naqueles grãos finos, grudentos, ásperos que colam na pele.

Decidi me abrir para o mundo, participar de eventos, aceitar e fazer convites, experimentar em vez de evitar. Me tornei a coisa mais querida e gostei de me sentir assim.

Posso ter uma visão crítica do mundo, não tolerar preconceitos e injustiças, lutar pelo que acredito, sem precisar desistir de aproveitar aquilo de bom que me cerca. Estamos cercados de Trumps e Musks, temos a nossa versão nacional, estadual, municipal e nas relações pessoais e familiares do que há de pior no ser humano, mas, mesmo me colocando contra tanto absurdo, não vou permitir que eles me transformem no mesmo tipo de ser humano que eles são.

Voltei feliz, relaxada. Viajei sozinha de Torres a Porto Alegre. O spotfy deu pane. Só conseguia sintonizar a rádio Maristela de Torres. Na primeira meia hora, música boa, depois, só sertanejo. Vim cantando e me divertindo. As letras são muito fáceis de aprender (ou presumir). Só não dancei por medo de sofrer um acidente. Fui a Thelma sem a Louise e com um final feliz.

Minha casa, meu aconchego. Minha família, meu espaço de afeto.

Já na segunda-feira, fui desafiada. Talvez tenha trazido na bagagem, ou encubado em mim, um vírus estomacal que me transformou de Thelma em Linda Blair. Devo ter ficado verde, só não sei pois não havia tempo de me olhar no espelho quando entrava no banheiro. A cabeça com certeza virou, girou, pesou.

Como não sou Cristo, só ressuscitei no quinto dia. A experiência de quase morte reafirmou meu desejo de viver. Não subirei aos céus, tenho muito para aproveitar por aqui.

São tantas as possibilidades de crônica que provoquei um cataclismo criativo em mim. Não consegui decidir por nenhum assunto. Decidi recomeçar a publicar me comprometendo com essa possibilidade de leveza e quis dividir com vocês.

Acho que a frase da Fernanda Torres foi o estopim para tantas reflexões. “A vida presta” e, não importa o quão dura possa ser às vezes, não será dura sempre. Nem eu.



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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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