Hiato temporal


Maria Avelina Fuhro Gastal

Contrariando o calendário, o ano terminou no dia 25 de dezembro. Sempre termina.

De 25 a 31 de dezembro vivemos um hiato temporal. O ano em vigor já deu o que tinha que dar, ninguém aguenta mais. O novo ainda é promessa e esperança.

Nesse período percebemos que dos quilos que tínhamos como meta eliminar, perdemos 360 dias e nenhum grama. As perspectivas dos próximos dias não indicam possibilidade de mínimo sucesso.

A intenção de ser uma pessoa mais pacienciosa ficou perdida nas águas de maio e se afogou de vez no resultado das eleições municipais.

Azar. Agora é o momento de reavaliar as metas e, se for o caso, acreditar nos coachs que dizem ser a persistência o combustível do sucesso. Persista pelo quinquagésimo ano, se quiser. Modifique, exclua, inclua tópicos. Revolte-se e mande às favas qualquer meta. Assuma o Carpe Diem. Só encontre uma maneira de convencer credores que os boletos terão sua vez quando o momento certo chegar.

Durante o hiato temporal, desligue a TV, ignore retrospectivas, não permita que o Mercado tire o seu sono (pelo menos isso ainda podemos fazer, já que o resto ele nos tira o tempo todo), quebre a rotina, liberte-se das correntes que te mantem preso a expectativas, medos, traumas, ameaças, compromissos. Energize-se. Vale banho de sal grosso e alecrim, defumação, reza, simpatias e acessos de raiva direcionados a quem merece. Deixe que a vida te leve e que leve para bem longe quem só incomoda.

Comece o novo ano acreditando na mudança, na vitória, na felicidade, na prisão dos golpistas. Teremos 360 dias para nos decepcionar, vamos vive-los a seu tempo, sem antecipar sofrimento.

Garanta algumas tradições se elas te fazem acreditar que tudo vai melhorar. Use a cor do ano, use branco, use vermelho, use calcinha ou cueca amarela, use o que quiser. Comece o ano fazendo aquilo que te satisfaz. É um bom treino para enfrentar a tentativa de massificação sempre presente

Na virada o clima é de superação, euforia e esperança. Deixe o ranço para os dias seguintes.

Evite misturar doze uvas, lentilha, salmão, porco. Dificilmente você garantirá que sua vida vá para a frente, provavelmente o único trajeto que você seguirá será entre a sala e o banheiro.

Se for levar bebida para a festa, leve o que gosta de beber. Não chegue com Polar para beber Heineken. Mesmo com grande oferta, virada em casa de parentes e amigos não é “open bar”.

Deixe para ficar de porre depois que o novo ano tiver começado ou você correrá o risco de ficar preso ao ano que já não suporta mais. Bebedeira causa esquecimento e você não lembrará que tudo acabou e que nova possibilidade de cometer erros e fazer bobagens começou.

Se beber, não dirija, tente se manter vivo para aproveitar o ano, e não mate ninguém com o seu porre irresponsável. Não mande mensagem ou faça ligação para: seu chefe, para um ex, para familiar ou amigo patriota que defenda a anistia dos golpistas (se é que você ainda tem estômago para conviver com essa gente). Não torne seus primeiros momentos do ano um inferno, dilua a possibilidade em doses homeopáticas pelos próximos doze meses.

Festas passam e nós continuamos.

Em 2025 nos encontramos por aqui, por aí, por onde a vida nos levar e por onde tivermos coragem de buscar e avançar.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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