O enigma das redes


Maria Avelina Fuhro Gastal

Muito se têm falado sobre as redes sociais. Muito se têm visto dos absurdos que circulam por ela. Negação da ciência, apologia ao ódio, mentiras que decidem eleições, maculam reputações, destroem carreiras e vidas pessoais, manipulação de fatos espalhados como verdade sem qualquer preocupação de conferência sobre a veracidade da informação.

Clicamos em emojis, compartilhamos publicações, tecemos comentários protegidos pela distância. Renunciamos ao uso da consciência e responsabilidade, transformamos o nosso dedo do clique em senhor das nossas publicações.

Por outro lado, pelas redes o assassinato de João Alberto no pátio do Carrefour, o assédio sexual do deputado Fernando Cury à deputada Isa Penna na Alesp, a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes, e tantos outros crimes cometidos contra anônimos por sua cor de pele, gênero, orientação sexual, classe social, não podem ser abafados. Os mecanismos de acobertamento se mantêm, mas os protestos pelas redes impedem o apagamento.

Perdemos a privacidade. Os algoritmos nos desvendam. O Google nos indica aquilo que perguntamos ou conversamos em voz alta. Nossas pesquisas servem ao mercado. Clonam nosso perfil, nosso whatsapp. Sabem mais de nós do que nós mesmos.

Mas em tempos de isolamento social, agradeço viver em uma época com internet e redes sociais. Sem elas, me restaria a televisão para trazer o mundo e o telefone para ouvir as vozes que me fazem falta. Estaria ralada. Sempre odiei TV e telefone.

Nestes dez meses de confinamento quase total, morando sozinha, passando pela terceira troca de estação sem que a rotina mude, conectada à vida sem sair de casa nem receber ninguém, percebi que as redes são insuficientes para suprir a falta dos que eram sempre presentes. O vazio permanece e não há muito que possa ser dito sem o convívio. Há, no entanto, o outro lado dessa realidade. Pessoas que não faziam parte do meu dia a dia estão no meu cotidiano.

Em setembro, participei de uma reunião pelo Zoom para festejar o aniversário de um primo. Parece banal, mas foi de um primo com quem convivi muito na adolescência. Crescemos, casamos, tivemos, filhos, separamos, afastados. Ele morando em Brasília, eu aqui. Contato nenhum. O último aniversário em que estivemos juntos foi um almoço na casa dos meus pais, quando eu fiz quinze anos. Pelas redes nos reaproximamos. Percebi o quanto eu tinha saudades dele. Trocamos textos, conversamos sobre cinema, memórias. Voltamos a ser primos.

Em março, não fui ao lançamento de Mel e Dendê porque embarquei para Cuba no mesmo dia. Não conhecia a autora, mas as publicações de amigos em comum no Facebook despertaram meu interesse pelo livro. Voltei já com a impossibilidade de nos encontrarmos por causa da pandemia. Recebi o livro pelo correio. Nós ainda não nos conhecemos, pessoalmente, mas criamos um forte vínculo, a princípio, pela literatura, a seguir pelo papel fundamental dela na desconstrução da minha branquitude. Hoje, soma-se a tudo isso, afeto e admiração.

Em 2019, participamos do mesmo livro, com crônicas de vários autores, que se reuniam em uma mesa de bar para discutir os textos. Éramos de grupos de horários diferentes, ele chegava quando eu já estava saindo. Trocamos poucas palavras. Eu o conhecia pelo apelido, só descobri o nome na publicação do livro. Em 2020, conversamos mais do que no ano passado, sem nunca nos encontrarmos. Espero os comentários dele aos meus textos, comento os dele. É um dos maiores responsáveis pelo aumento, sem controle, da minha lista de livros para ler.

Para 2021 ainda não há uma boa perspectiva. Por certo, quero manter o que este ano me deu de bom: a proximidade com pessoas que valem a pena estar por perto. E, em breve, poder estar junto daqueles que sinto tanta falta.

As redes sociais continuarão a ser um enigma para mim, distanciam quem é próximo, aproximam quem é distante.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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