Branquitude


Maria Avelina Fuhro Gastal

No sesquicenten醨io da Independ阯cia do Brasil eu cursava o que, 閜oca, era denominado de Gin醩io. Lembro do col間io todo decorado em verde e amarelo e de um esfor鏾 das freiras em organizar eventos e atos que culminassem em uma grande festa na Semana da P醫ria. Nas aulas de m鷖ica aprend韆mos, e repet韆mos sem cessar, o Hino Nacional e o Hino da Independ阯cia. Cada turma ficou respons醰el pela prepara玢o de algo especial. minha coube encenar o Grito do Ipiranga. Naquele long韓quo setembro, teatro do col間io cheio, est醰amos prontas para o palco. A maioria de n髎 era coadjuvantes, represent醰amos os 韓dios, uma era o pr韓cipe regente, outra o mensageiro, cerca de dez personificavam os acompanhantes do pr韓cipe. Apelidamo-nos de 韓dios 揷ara p醠idas, no meu caso, ainda por cima, ruiva e sardenta. No momento de maior emo玢o, minha colega-pr韓cipe desembainhou a espada e gritou 揑ndec阯cia ou Morte. 蚽dios, mensageiro, acompanhantes e grande parte da plateia riu, as freiras n鉶. Por um bom tempo ouvimos serm鮡s pelo erro que elas julgaram intencional. Foi s o que viram de errado na nossa encena玢o, nenhuma palavra sobre a presen鏰 dos 韓dios, a aus阯cia dos negros. T韓hamos internalizado a hist髍ia oficial branca sem nenhuma cr韙ica ou questionamento.

Um ano depois, debutei. N鉶 tanto por vontade pr髉ria, mas por press鉶 da minha m鉫. Meu protesto limitou-se negativa de usar um vestido branco com babados, optei por um rosa com bordados. Minha rebeldia n鉶 representava maiores riscos. Na noite do baile 閞amos cinquenta e tr阺 meninas em vestidos brancos, rosas, azuis celestes deslizando pelo sal鉶 conduzidas por nossos pais e uma menina do Clube Floresta Aurora. N鉶 que eu lembre dela, mas a foto est na 鷏tima p醙ina do 醠bum que ganhamos com nossas fotos, filia玢o, e a observa玢o de que ela era convidada.

Vivi minha adolesc阯cia nos meados da d閏ada de 1970. No col間io aprendia sobre a Guerra Fria, em casa ouvia sobre a ditadura militar, com ordens expressas de n鉶 repetir nada do que convers醰amos em outros lugares. O risco era baixo. Na rua preferia as reuni鮡s dan鏰ntes, as festas de quinze anos, o cinema com amigos, os encontros com amigas para escutar m鷖ica, curtir 揻ossa por algum menino que n鉶 nos dava a m韓ima, ouvir sobre o primeiro beijo das outras. As festas em clubes vieram na sequ阯cia, levada e buscada pelos meus pais. Em uma delas, no Lindoia T阯is Clube, n鉶 entramos. Solidariedade ao nosso amigo que foi barrado. O clube n鉶 permitia negros. Um de n髎 p鬱e entrar para telefonar e pedir aos nossos pais que fossem nos buscar. Enquanto esper醰amos na frente do clube, 閞amos observados pelos seguran鏰s. Pela primeira vez ouvimos que negro n鉶 entrava em todos os lugares. Ficamos indignados por terem barrado S閞gio. N髎 o cham醰amos de Maguila.

Minha m鉫 por essa 閜oca disse estar preocupada com o meu primeiro namorado. Achava que ele tinha gengiva de negro e uns cabelos nas t阭poras que cresciam meio carapinhas. N鉶 terminei o namoro por isso. Fiquei furiosa com ela por estar procurando defeitos nele.

Em casa, aprendia sobre a import鈔cia de tratar a todos como iguais, embora a empregada n鉶 tivesse permiss鉶 para sentar-se mesa nas refei珲es. Na casa da minha av paterna, em Pelotas, vivia Iracema, h tanto tempo na fam韑ia que conheceu meu pai quando ele nasceu. Depois da morte do meu av, ela se tornou a acompanhante permanente da minha av. Na ampla sala com sof醩 e poltronas havia um mochinho ao canto para Iracema. Era descrita como da fam韑ia. N鉶 aparece em nenhuma foto do 醠bum familiar. Quando crian鏰 eu a temia, era negra como o bicho pap鉶.

Adolescer nos anos setenta trazia a promessa de um pa韘 do futuro. O col間io de freiras que eu estudava equilibrava-se entre aulas de qu韒ica, f韘ica, matem醫ica, ingl阺, portugu阺, literatura, hist髍ia, geografia, sociologia, filosofia, educa玢o moral e c韛ica e de artes manuais, culin醨ia, etiqueta social, tric, croch e bordado. Pens醰amos em medicina, engenharia, arquitetura, psicologia, veterin醨ia, an醠ise de sistemas, administra玢o ou qualquer outro curso superior, elas enalteciam os requintes de uma mesa bem posta, um card醦io elaborado e, acima de tudo, a import鈔cia de saber n鉶 para fazer, mas para orientar, mandar os empregados fazerem. Junto a tudo isso, as aulas de ensino religioso nos orientavam para a caridade e benevol阯cia.

Fiz uma escolha profissional conciliat髍ia. Prestei vestibular para Servi鏾 Social.
Na faculdade tive meus dois primeiros colegas negros. Mais velhos do que eu, j casados e com filhos. Por quatro anos dividimos disciplinas, experi阯cias na pr醫ica supervisionada, alguns trabalhos em grupo. Na formatura foram os mais aplaudidos, reconhecimento supera玢o da cor da pele na obten玢o de um diploma universit醨io. Ainda hoje os aplausos mais enf醫icos acontecem quando o formando negro.

No in韈io da minha vida profissional passei a ter um contato di醨io e intenso com negros. Eram eles que internavam em maior n鷐ero por desnutri玢o grave, broncopneumonia, verminose, Mal de Kwashiorkor (desnutri玢o proteica). Muitos morriam, outros tantos eram abandonados no hospital e a maioria retornava para nova hospitaliza玢o poucos dias ap髎 a alta. Nessa 閜oca eu j desacreditara em um pa韘 do futuro e come鏰va a compreender os mecanismos da desigualdade social, estritamente do ponto de vista de uma op玢o pelo sistema capitalista, ignorando as especificidades relativas ao que eu tinha aprendido como ra鏰s. Acreditava que a cor da pele n鉶 importava, acima de tudo deveria estar a justi鏰 social.

Em meados da d閏ada de 1980, prestei concurso p鷅lico para o cargo de Assistente Social no poder legislativo estadual. Comecei a desempenhar as fun珲es na creche para os filhos de servidores da Assembleia Legislativa. As turmas tinham crian鏰s brancas e algumas negras; na cozinha, lavanderia e servi鏾 de limpeza da creche a maioria dos funcion醨ios era negra, enquanto entre professores, atendentes e estagi醨ios poucos n鉶 eram brancos. Espantava-me aquilo que eu entendia como agressividade quando nas reuni鮡s diversos procedimentos eram apontados como racistas. Passei a acreditar em uma raiva sem sentido, causada por problemas de ordem pessoal.

medida que a viol阯cia urbana aumentava, eu trocava de cal鏰da se via um grupo de meninos negros. Nas tr阺 vezes em que fui assaltada, eles eram brancos. Continuei evitando os mesmos grupos, apesar da experi阯cia n鉶 confirmar meu temor.

Trago em mim a g阯ese da branquitude. Cresci em relacionamentos verticais com os negros, onde eu ocupava a posi玢o de superioridade. Eram empregados na minha casa, na casa dos meus familiares, zeladores e faxineiros dos pr閐ios em que morei. Faziam trabalhos bra鏰is, n鉶 tinham voz nem querer. Serviam a n髎 que, al閙 de um sal醨io-m韓imo, busc醰amos trat-los como gente. No descontentamento, viravam 揺ssa gente. Um grupo diferente de n髎, apesar da nossa compaix鉶 e benevol阯cia.

Das mulheres negras, invejava a sensualidade, o gingado, a habilidade em mexer as cadeiras, tudo aquilo que faz delas um fetiche e uma unidade indistinta onde a cor da pele define um bloco sem rosto, nome, vontades, desejos, hist髍ias, dores.

Contamos e recontamos a hist髍ia do pa韘 apagando a presen鏰 negra. Ignoramos a d韛ida social e hist髍ica pela escravid鉶. Aplaudimos formandos negros sem a vergonha de manter uma estrutura social que nega a eles o mesmo direito que julgamos ser merecedores. O que para n髎 sonho ou meta, entregamos a eles como desafio. Cada um que ven鏰 por si mesmo. Garantimos ovacionar a conquista, enquanto ela n鉶 nos amea鏰r.

Festejamos com orgulho uma data marcada pelo Massacre de Porongos. Continuamos a desarmar os negros, negando o acesso educa玢o de qualidade, empurrando-os para longe dos nossos olhos. Que minguem e morram pr髕imo aos esgotos a c閡 aberto.

Tudo isso mantendo o orgulho de n鉶 ser racista. Nada mais racista do que se afirmar n鉶-racista. Parte da concep玢o que h ra鏰s e n鉶 apenas pessoas com diferen鏰s gen閠icas que influenciam nas diversas caracter韘ticas f韘icas. Ra鏰 marca de diferen鏰, n鉶 de diversidade. Separa os brancos de todos os outros, ao mesmo tempo que a linguagem enaltece a brancura como qualidade, pureza, leveza, paz e o preto como treva, maldade, tristeza, sujeira.

A dor que sinto ao me perceber estruturalmente branca n鉶 se compara a dor de um negro em uma sociedade que nega o sofrimento infligido e continua matando e perseguindo pela cor da pele.

N鉶 fale de racismo reverso. Lembre-se de quantas vezes voc precisou se apoiar em um grupo para lutar contra o poder, representado por seus pais, empregadores ou governantes. N髎, brancos, somos o poder que espolia, h s閏ulos, os negros neste pa韘. Trazidos como carga e mercadoria, continuamos barrando e excluindo-os dos espa鏾s de cidad鉶s.

Somos t鉶 competentes em calar e apagar as vozes negras que precisei de d閏adas para poder come鏰r a ver que minha cren鏰 no meu n鉶-racismo trazia a constru玢o hist髍ica de superioridade. Negava ao outro a afirma玢o de sua revolta e de sua dor, transformando-as em conflitos de origem pessoal e n鉶 social.

N鉶 sei o quanto de mim ainda se mant閙 n鉶-racista. Quero eliminar em mim essa cren鏰, assumir o racismo que h nela e poder me construir antirracista. Para isso, n鉶 poupem cr韙icas quando a minha branquitude se fizer presente. Ela me envergonha.






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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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