Era uma vez


Maria Avelina Fuhro Gastal

Era uma vez um reino muito, muito pr髕imo, mas t鉶, t鉶 distante.

Nele as ruas s鉶 cobertas de pedrinhas brilhantes, polidas, a cada vez que algu閙 as pisa, por servi鏰is que exercem seu of韈io de joelhos e olhos baixos, tendo como 鷑ica vis鉶 os cal鏰dos dos que por ali transitam, e sem sapatos para n鉶 danificar as pedrinhas, embora seus p閟 com solas grossas sejam motivo para a鏾itamento e demiss鉶.

O reino ocupa um amplo espa鏾, com grandes alamedas, pra鏰s, parques e castelos dos mais variados tipos, todos com muitos vidros, bronze, m醨more e floridos jardins.
Tudo nele � limpo, cheiroso, conservado. Mas ningu閙 que ali mora � o respons醰el por essa organiza玢o e cuidado, apenas sabem como exigir e cobrar a execu玢o de suas vontades.

H� muitas crian鏰s. Todas dormem em ber鏾s espl阯didos, entre len珞is de cambraia bordados e com as iniciais do nome das fam韑ias neles eternizadas. Todas s鉶 coradas e bem alimentadas. T鉶 logo suas vontades se manifestam, h� uma trupe de cuidadores que se desdobram para decifr�-las e atend�-las.

O reino � o para韘o na terra, dentro dos seus limites. Para chegar � divisa desse reino, anda-se por muitas l間uas. � medida que se afastam da 醨ea central, os castelos parecem menos pomposos, at� que na beira do riacho, transformam-se em resid阯cias confort醰eis, mas sem luxo aparente.

O riacho � t鉶 antigo que foi acrescido ao seu nome o prefixo pre, de riacho Conceituoso passou a ser chamado de riacho Pre-Conceituoso. Ningu閙 � capaz de entender como ele se tornara t鉶 caudaloso, quase n鉶 mais um riacho, mas um rio.

Na outra margem do Pre-Conceituoso, n鉶 h� castelos, mas casebres. As crian鏰s s鉶 muitas e colecionam vontades. Os ber鏾s s鉶 caixotes, papel鮡s, colch鮡s descartados pelo reino, onde dormem tantos quantos conseguirem ali se aninhar.

N鉶 h� jardins, s� mato. N鉶 h� pra鏰s e parques, s� entulhos. N鉶 h� odor, s� fedor. N鉶 h� tempo entre os moradores para cuidarem da limpeza, da organiza玢o, da m韓ima conserva玢o do espa鏾. O tempo deles pertence ao reino e � l� que eles devem zelar pelo que n鉶 � deles.

Tudo funciona muito bem. Para o reino. H� s閏ulos v阭 sendo assim, portanto n鉶 h� motivo para mudar. No entanto, os moradores mais distantes do centro, come鏰m a perceber movimentos perigosos vindos da margem esquecida do Pre-Conceituoso. Temeram. Levaram ao centro suas ang鷖tias.

Algo precisava mudar. Reconhecer a situa玢o da margem esquecida para que o reino n鉶 fosse amea鏰do.

Reuni鮡s intermin醰eis, acordos inexplic醰eis foram se avolumando em busca de um ant韉oto que freasse o veneno que poderia contaminar toda a margem esquecida.
Alguns sugeriram um aux韑io financeiro e a possibilidade de algum descanso entre a jornada de trabalho. Muitos se escandalizaram. Mais dinheiro e menos horas de trabalho alimentariam a pregui鏰 e o descaso com as tarefas.

Para manter a vontade, sugeriram associar merecimento com sorte. Elaboraram uma escala que vinculava ac鷐ulo de horas trabalhadas com a quantidade de n鷐eros para concorrer a um pr阭io pecuni醨io. Quanto mais horas ininterruptas de trabalho, com o m韓imo de descanso, maiores as chances.

As duas ideias chegaram � margem esquecida.

T鉶 acostumados a nada ter, viram na possibilidade de pr阭io uma chance mais r醦ida de ganhar algum dinheiro. Trabalhar mais n鉶 seria problema, j� que trabalhar era s� o que faziam, ent鉶 n鉶 teriam dificuldades para superar o desafio, mascarado de sorte.

Os que se opuseram � ideia foram vistos como mesquinhos e traidores, tirando de todos a oportunidade de pr阭ios opulentos.

Na divis鉶 da margem esquecida, o reino se fortaleceu.

No in韈io, apresentou uma escala tentadora. Com o tempo e com a maior ades鉶 da margem esquecida, alterou a escala com metas mais exigentes, at� que se tornaram invi醰eis.

Muito, muito tempo se passou. A margem esquecida est� ainda mais cansada e abandonada. A for鏰 da insatisfa玢o foi sugada pelo reino.

O reino mant閙 suas pedrinhas brilhantes, seus parques e jardins, seus ber鏾s espl阯didos com len珞is de cambraia bordados, suas crian鏰s coradas e atendidas.

A margem esquecida est� invis韛el. Talvez leve mais alguns s閏ulos para que tenham for鏰 para se movimentarem, j� que seus corpos est鉶 destro鏰dos pelo trabalho e suas almas esvaziadas de esperan鏰.

� uma vez um reino, t鉶, t鉶, mas t鉶 pr髕imo e t鉶 distante.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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