Maria Avelina Fuhro Gastal
H� quem pense que basta inspira玢o para escrever um texto.
H� quem pense que basta se sentar e come鏰r a escrever que as ideias v鉶 surgindo e as palavras se juntam para dar forma � ideia.
Garanto que inspira玢o n鉶 � suficiente e que, muitas vezes, h� uma infinidade de assuntos que poderiam ser abordados e, mesmo assim, nada sai, o papel fica em branco enquanto as ideias v鉶 se empilhando, mas n鉶 se transformam em texto.
Desde a 鷏tima cr鬾ica que publiquei, em 03 de maio passado, muitas ideias me ocorreram, algumas delas tomaram forma aproximada de cr鬾ica na minha cabe鏰, outras tantas ficaram como possibilidades, mas nenhuma se concretizou.
Poderia ter falado sobre as semelhan鏰s e diferen鏰s entre Porto Alegre e as cidades que visitei durante a minha 鷏tima viagem, o melhor e o pior daqui e de l�, sobre o processo conflituoso que resultou na decis鉶 de viajar sozinha, as agruras de caminhar, em m閐ia, 16.000 passos por dia, logo ap髎 uma entorse de joelho, e as consequ阯cias desses passos e a busca atr醩 do preju韟o, sobre maternidade de filhos adultos, sobre a gangorra enlouquecida da temperatura. Mas n鉶 falei. Ou melhor, n鉶 escrevi.
Por qu�?
Talvez a dor constante no joelho estivesse me irritando.
Por n鉶 ter certeza de que interessaria a algu閙 o que eu escreveria.
Por achar que nada que eu escrevesse seria importante.
Falar sobre a viagem quando tantos lutam com o dia a dia poderia ser desrespeitoso e esnobe.
A quem interessa meus conflitos?
Escrever sobre qualquer coisa ignorando:
o n鷐ero alarmante de feminic韉ios;
a vota玢o do projeto da dosimetria;
o risco de voltar ao poder quem nega a ci阯cia, se diz patriota, mas idolatra a bandeira americana e as atitudes desvairadas do Trump, tomou cloroquina e, hoje, bebe detergente, mas n鉶 toma vacina porque mata, desrespeita as mulheres, quer manter o trabalhador em uma escala de 6x1, defende o trabalho infantil, em vez de se preocupar com a manuten玢o na escola.
Cr鬾ica olha para o tempo presente. Neste nosso tempo h� pouco espa鏾 de leveza.
Devo escrever sobre esse pouco ou colocar ainda mais foco naquilo que nos desespera?
Como ser leve sem ser alienada? Como usar humor sem ser negacionista? Como tratar de temas da vida enquanto as vidas est鉶 em risco?
Sou respons醰el por tudo que escrevo. N鉶 posso fazer da escrita fonte de des鈔imo, nem tenho a ilus鉶 de que aquilo que escrevo possa alterar qualquer realidade. Mas tamb閙 sei que precisamos encontrar meios de respirar, de sentir certo al韛io, de revitalizar for鏰s, de superar as ang鷖tias para n鉶 desistir.
Esses meios de resist阯cia est鉶 no encontro com amigos, nas artes, na aprecia玢o do belo, na literatura, na alegria de viver. Ao escrever, tento fazer da minha escrita uma forma de resist阯cia.
纒 vezes, serei dura, em outras, leve, por vezes, enraivecida, em outros momentos, esperan鏾sa.
Serei com a vida nos �. Nem sempre f醕il e tranquila, cheia de desafios, com algumas decep珲es, mas sempre com a certeza de que cada experi阯cia e momento vivido, ou escrito, traz em si a possibilidade de mudan鏰.
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