Demais


Maria Avelina Fuhro Gastal

Se meu olhar sobre Porto Alegre se deixa guiar pelas lembran鏰s, Porto Alegre � demais.

Aqui dei meus primeiros passos, falei minhas primeiras palavras, fiz meus primeiros amigos.

O Centro da cidade era o meu quintal, a Pra鏰 do Alto da Bronze e da Alf鈔dega os p醫ios que nos faltavam nos diversos apartamentos em que morei na Rua dos Andradas.

Em pouco tempo, uma vez por ano, os balan鏾s e o escorregador eram trocados por livros que preenchiam a Pra鏰 da Alf鈔dega. Sem perceber que aquele lugar seria m醙ico por toda a minha vida, circulava entre as barracas de livros imaginando o quanto de brincadeiras, aventuras e amores estariam contidos neles.

Tracei o centro da cidade in鷐eras vezes. Conduzida em um carrinho de beb�, na garupa do carrinho que conduzia o meu irm鉶, caminhando com passos curtos e inseguros, com passos firmes e aut鬾omos, correndo por estar atrasada para o col間io.

Andei de bonde, de 鬾ibus, de t醲i fusca laranja, com meus pr髉rios p閟, explorando dist鈔cias, buscando o novo, relaxando no conhecido, imaginando horizontes que ainda n鉶 me eram permitidos.

As esta珲es se definiam. O frio era intenso, o outono cinzento, o ver鉶 escaldante a primavera festiva.

O vento que chorava era o mesmo que fazia as pessoas rirem com a nossa tentativa de segurar a saia pregueada do uniforme do col間io que teimava em bailar em todos os sentidos, ignorando o choro do Minuano e a nossa vergonha.

Nas minhas lembran鏰s mais ternas, Porto Alegre � sempre o cen醨io.

Se o meu olhar sobre a cidade se deixa guiar pelo cotidiano, Porto Alegre deixou de ser demais para estar demais.

Viol阯cia, lixo, sujeira, especula玢o imobili醨ia, poda e corte desenfreado de 醨vores, alagamentos, abandono, desrespeito, descaso e descuido com as pessoas, tudo demais, sem limites, em uma voracidade que aniquila o belo e a hist髍ia da cidade.

O p魊 do sol j� foi bloqueado para muitos, preservado para quem pode pagar para morar em um complexo residencial que nem preserva o idioma e vende a beleza pr髉ria da cidade em um Golden Lake esnobe. Ou por um Pontal que separa o Gua韇a do percurso de muitos, trocando a paisagem natural por um aglomerado de cimento e vidro sem sentido.

O horizonte foi encurtado. Ele est� limitado ao cimento de pr閐ios altos que tamb閙 roubam o sol, a luz de quem n鉶 vive nas alturas e ganha a vida ao r閟 do ch鉶.

Carros ignoram pessoas, motos ignoram sem醘oros, bicicletas s鉶 ignoradas por todos e ignoram pedestres. Pedestre, aqui, pode ser definido como algu閙 que morre atropelado, coberto de raz鉶, em cima de uma faixa de seguran鏰 que n鉶 o protege de nada.

Mobilidade urbana � palavr鉶. Nenhum planejamento s閞io que englobe infraestrutura vi醨ia, acessibilidade, integra玢o, condi珲es estruturais, tempo e custo do deslocamento. Carros inundam as ruas, trancam cruzamentos, param a cidade, buzinam, xingam, brigam, enquanto 鬾ibus passam lotados, sem nenhum respeito ao tempo e � vida dos trabalhadores.

Duas cidades em conflito: a das pessoas, a da hist髍ia, a da preserva玢o em oposi玢o 鄎uela que s� enxerga o capital.

Evoluir n鉶 � destruir. Crescer n鉶 � derrubar tudo. Avan鏰r n鉶 � apagar o passado.

Hoje, a Porto Alegre desse meu j� longo andar, n鉶 permite que aqui eu me sinta em paz.

Refer阯cias:
O Mapa � Mario Quintana
Porto Alegre � demais � Isabela Foga鏰





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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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