Trégua


Maria Avelina Fuhro Gastal

A crônica, de forma geral, é definida como um texto curto, em forma de prosa e com linguagem simples, que narra fatos do cotidiano de forma subjetiva, impregnada de opinião, humor ou reflexão.

Embora a definição faça parecer fácil, nada mais desesperador do que ter o cotidiano como matéria quando ele veste a máscara do horror, do absurdo, do impensável.
Passei o dia de ontem, domingo, 8 de fevereiro, tentando pensar em um tema para este texto que não pesasse para os leitores. Ao mesmo tempo, sentia que escrever algo banal seria um desrespeito à vida, ao que de humano ainda resta em nós.

Se o cotidiano tem nos atropelado, na última semana ele nos patrolou.
Feminicídios em descontrole, governador de Santa Catarina, com orgulho, anunciando que não tomará parte do pacto nacional para deter o feminicídio, os arquivos do caso Epstein, parte deles, mostrando atos de extrema violência física, psicológica e sexual contra meninas, envolvendo figuras de poder ou de projeção internacional, morte de Rodrigo Castanheira, 16 anos, após dias em coma por ter sido brutalmente espancado por Pedro Turra Basso, 19 anos, que possui várias denúncias e prisões por atos de violência, coação de menores, tentativa de homicídio, mas circulava livre para agredir, surrar, matar. Ainda o caso do cão Orelha, torturado por adolescentes, que, após identificados, contaram com suas famílias para tentar encobrir, minimizar a atitude, ameaçar testemunhas. Sistema legal operando de acordo com a conta bancária e a cor da pele dos envolvidos. O casal Obama representado como um casal de macacos por aquele que governa um país com milhões de negros, que foram para lá escravizados, ajudaram a enriquecer os brancos, e foram e são tratados como animais violentos. Deputados que recebem inúmeros auxílios, votando contra o auxílio gás para pessoas de baixa renda, que não comem caviar, e, muitas vezes, não tem nem como acender o fogo para misturar farinha com água e enganar o estômago. Cuba sendo, mais uma vez, massacrada, sem combustível para manter o país funcionando.

Esses foram temas do nosso cotidiano. Impossível brincar com eles, já que são opções pela morte, pelo extermínio.

Tentava entender como ainda tantos apoiam a extrema direita, não só poderosos, mas mulheres, negros, gays, assalariados, miseráveis, latinos. O criador do movimento “Latinos por Trump” foi capturado pelo ICE e enviado para Cuba.

Só me veio à cabeça a constatação de que o capitalismo e o patriarcado atingiram seus objetivos. Cooptaram aqueles que podem ameaçá-los, fazendo deles cúmplices da própria perseguição e extinção.

Como continuar escrevendo depois dessa constatação sem me tornar sombria, sem fazer de vocês leitores da minha desesperança?

A resposta veio de onde eu menos esperava, do Super Bowl. Evento esportivo dos mais assistido pelo mundo inteiro, tradição das famílias estado-unidenses, sendo o segundo evento em consumo de alimentos nos Estados Unidos, só superado pelo Dia de Ação de Graças, com o intervalo comercial mais caro na televisão.

Pois foi nesse típico evento capitalista, masculino, orgulho do país, que um Porto-riquenho, filho de um caminhoneiro e de uma professora aposentada, latino, mesmo que Porto Rico pertença aos Estados Unidos, não é considerado um estado, portanto, apesar de terem cidadania americana, não podem votar nas eleições presidenciais, deixou claro, em espanhol, que somos todos americanos e que “a única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor”.

Foi a arte falando por nós, libertando o que está engasgado, com beleza, inclusão, diversidade, comprometimento social, respeito às origens culturais.

Bad Bunny está rico, é homem, mas não vendeu sua essência à voracidade masculina e capitalista. Usou a sua arma, que não desfere tiros, não ameaça nem mata, para encantar e denunciar, “sem perder a ternura” nem omitir o sangue, o ritmo, a espontaneidade, a alegria de viver, o orgulho da nossa latinidade. Somos americanos, todos, nós brasileiros, outros canadenses, mexicanos, venezuelanos, caribenhos e, eles, estado-unidenses.

Se a arte sozinha não salva, ela abre caminhos. Desestabiliza, provoca, não se cala, se expande em busca de parceiros para uma luta difícil. Se pararmos, eles vencem, e eu não quero viver em um mundo onde o ódio é dominante.



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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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