Maria Avelina Fuhro Gastal
O objeto deste segundo episódio da Série Paixão tem cheiro, gosto, memórias e saudades.
Nem meus pais nem minha família extensa poderiam imaginar que aquilo que motivou a nossa vinda para Porto Alegre, quando eu tinha 6 meses, permaneceria como paixão, mesmo depois de tantas décadas, tantas transformações e tantas perdas.
Nas minhas primeiras lembranças, já não morava tão próximo. Uma quadra me separava daquilo que foi, para mim, um parquinho de diversões, um lugar mágico, um irmão mais velho que roubava a atenção do meu pai, uma babá generosa que nos fornecia balas e
entretenimento, um espaço de descobertas.
Não consigo descrever o cheiro de uma cabine de projeção de cinema nos anos 60 e 70, mas ele está nas minhas memórias. Era um encantamento ver aquele filme rodando, por vezes arrebentando, e a rapidez e destreza do operador para emendar as partes antes que as vaias do público aumentassem.
O convite do “Baleiro, balas”, com seu cesto recheado de balas de goma, azedinhas, Bastão de leite, para que desfrutássemos das doçuras antes do início da sessão. Pipocas e refrigerantes não eram permitidos. Nem chinelos de dedo, havaianas ou não.
Cresci em meio à programação de cinemas, cartazes de filmes que decoravam as paredes do quarto do meu irmão, LPs de trilhas sonoras que eram o som ambiente da casa dos meus pais.
E, no meio disso tudo, eu não pagava cinema. Tínhamos uma “permanente” que liberava do pagamento em qualquer sala de projeção no Rio Grande do Sul. Era minha maior fortuna, livre acesso, com possibilidade de convidar amigas e amigos. Por dessas artimanhas da vida, a primeira vez que paguei cinema foi em 1993, após a morte do meu pai, e fui assistir à Cinema Paradiso. Foi difícil e reparador. Doía a saudades, mas eternizava a experiência de conexão com a história contada na tela.
Não entro em uma sala de cinema impune. Abstraio que estou em um Shopping, que cheiro de pipoca vai impregnar o ar e me entrego inteira ao momento. E é um momento repleto de memórias. Lembranças de amigas que já se foram e tanto estiveram comigo em sessões de cinema, de companhias que permaneceram em mim, mesmo que, agora, distantes, de histórias vividas além das contadas na tela.
O cinema não me permite conter emoções, elas transbordam. As histórias me sugam e me permito senti-las. É como se um portal se abrisse, derrubasse minhas defesas e acessasse tudo aquilo que me esforço para conter, omitir ou negar.
Talvez o escurinho do cinema seja meu escudo, mas também é meu bálsamo. Nele me reconecto com meus sentimentos, minhas saudades.
Mais do que encontrar ressonância nos filmes, minha história se confunde com o espaço dos cinemas.
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