Maria Avelina Fuhro Gastal
Momentos vividos no hoje, 鄐 vezes, nos remetem ao nosso passado. Quanto mais idade temos, mais passado carregamos.
No s醔ado, dia 6 de setembro, fui ao show Tempo Rei, de Gilberto Gil. Maravilhoso. Um passeio pela trajet髍ia do artista que nos leva � trajet髍ia do pa韘. N鉶 de forma linear, pois o tempo s� marca datas no calend醨io, em n髎 ele se confunde.
Vivemos o tempo presente carregado de viv阯cias e mem髍ias de um tempo que, se no calend醨io j� passou, em n髎 permanece.
Ao ouvir 揇omingo no parque� me vi sentada frente ao aparelho de uma TV em preto e branco, vendo um Gil ainda jovem cantando no festival acompanhado pelos Mutantes, sendo muito clara para mim a imagem de Rita Lee. Precisei conferir no Youtube se o que eu lembrava conferia. Estava tudo l�. Mas a sensa玢o estava em mim.
Nessa 閜oca, eu tinha 9 anos. A Segunda Guerra Mundial havia terminado h� 22 anos, mas a imagem da bomba at鬽ica lan鏰da em Hiroshima e Nagasaki ainda era uma constante, o mundo se dividia em comunismo e capitalismo, a Guerra Fria nos trazia o constante temor de uma guerra nuclear, h� 3 anos viv韆mos sob a ditadura militar implantada em um golpe civil-militar. Algo pairava no ar.
Olhando o meu entorno no show, percebi que um grande n鷐ero da plateia estava na minha faixa et醨ia, possivelmente com lembran鏰s que conversavam com as minhas. Havia, tamb閙, um n鷐ero significativo de pessoas na faixa dos 50 anos. N鉶 viveram os anos 60, eram muito pequenas no final dos anos 70, chegaram aos 9 anos a partir de 1984. Talvez lembrem do movimento das Diretas J�, da vota玢o da Emenda Dante de Oliveira, da inaugura玢o do Samb骴romo e da estreia de Ayrton Senna na F髍mula 1, no Grande Pr阭io do Brasil, da promulga玢o da Constitui玢o Cidad�. S鉶 os filhos que nos viram indo a com韈ios pelo fim da ditadura, s鉶 os netos de nossos pais que viveram a Segunda Guerra e o Golpe civil- militar no Brasil. Outros poucos estavam na faixa entre 40 e 30 anos, com 9 anos em 1994 e 2004, respectivamente. A conquista do tetracampeonato da Copa do Mundo pelo Brasil, a cria玢o do Facebook e do Youtube, o tsunami na Indon閟ia podem ser as mem髍ias mais marcantes deles. J� viveram em um tempo de normalidade democr醫ica. Talvez nem mesmo a lembran鏰 da invas鉶 do Iraque pelos Estados Unidos cause algum efeito f韘ico ou sensorial.
Quanto mais distantes dos eventos, mais precisamos que os outros nos contem a hist髍ia, mais precisamos buscar as informa珲es, sob pena de n鉶 conseguirmos mais conversar entre as diferentes gera珲es para a constru玢o de um mundo melhor.
No domingo, dia 7 de setembro, fui � manifesta玢o contra a anistia proposta aos atuais golpistas. Um qu髍um muito aqu閙 do que eu esperava e, principalmente, do que a seriedade do tema merece. A proposta � um deboche � soberania, � cidadania, ao povo brasileiro.
Aprovada, nada � crime, tudo � permitido, n鉶 s� golpes de Estado como atos de organiza玢o ou associa玢o criminosa ou constitui玢o de mil韈ia privada.
De novo a grande maioria na manifesta玢o era da minha faixa et醨ia, muito poucos entre 30 e 40 anos. Ouvi o que sempre escutei em todas as manifesta珲es em que fui desde o final dos anos 70. Ali o tempo parou. Fora dali o tempo d� cambalhotas em alta velocidade.
Cada vez mais a sociedade vive o tempo presente. As informa珲es, verdadeiras ou falsas, atropelam a todos, aceleram o ritmo da vida. Vivemos o tempo da mercadoria, do capital, do empreendedorismo, da livre iniciativa, da individualidade, do lucro, da exposi玢o midi醫ica, dos influencers rasos, do reconhecimento pela apar阯cia e posses. Ignorar essa realidade � falar para o vazio e deixar espa鏾 para que cren鏰s e mentiras cooptem grande parte da sociedade.
H� muito para ser transformado, mas, para tanto, � necess醨io ouvir e ser ouvido, ajustar o discurso ao tempo vivido. N髎 n鉶 precisamos mais ser convencidos, mas estamos, cada vez mais, em pequeno n鷐ero. N鉶 h�, hoje, conhecimento do passado, n鉶 houve viv阯cia real, h� muito a educa玢o foi esvaziada desse papel, se tornando tecnicista e utilit醨ia. Os vazios foram preenchidos por discursos afinados com as expectativas atuais que ocuparam espa鏾s onde o contradit髍io se omitiu.
Fico assustada com o rumo de tudo. Fico apavorada com a bandeira americana sendo venerada no Dia da Independ阯cia. Fico indignada com o apoio 鄐 san珲es ao Brasil. Fico estarrecida com as amea鏰s de Trump em usar a for鏰 econ鬽ica e militar dos Estados Unidos contra o Brasil. Fico triste ao ver o tanto de apoio que ainda � dado � extrema direita golpista no Brasil.
Precisamos encontrar uma nova forma de falar que alie o conhecimento pr関io 鄐 exig阯cias e expectativas contempor鈔eas.
Temo estarmos, daqui uns anos, em cl韓icas geri醫ricas, vivendo em um mundo desumano, gritando as mesmas palavras de ordem, repetindo os mesmos discursos, sendo tolerados por um tempo e depois sendo sedados, pois nossa senilidade e dem阯cia nos desconecta da realidade e nos deixa agitados.
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