Era uma vez - Parte 1


Maria Avelina Fuhro Gastal

Era uma vez, em uma terra muito, mas muito, muito distante mesmo, um lugar de magia, onde p醩saros e animais da floresta conversam entre si e com os humanos que por ali se aventuram. Algumas casas s鉶 simples, outras, castelos. Muros separam os que moram em uma ou na outra habita玢o. Cavalos, ratinhos, porquinhos e galinhas fazem companhia aos que se sentem s髎 e encantam com suas habilidades. M鉫s morrem cedo. Pais casam de novo e sempre escolhem uma mulher que n鉶 � uma boa madrasta, principalmente para as meninas. O bem e o mal travam luta constante, mas por sorte, o bem sempre vence. A celebra玢o da vit髍ia se d� em um baile lindo, onde a harmonia e a paz reinam para celebrar um amor que durar� para sempre.

� uma vez, duas vezes, in鷐eras vezes, incont醰eis vezes, uma terra muito, mas muito pr髕ima mesmo, um lugar de realidade, onde mal se escuta o canto dos p醩saros e as buzinas, os motores, aas britadeiras, os gritos impedem que os animais se comuniquem, ent鉶 rosnam, acuam e atacam humanos que por ali se aventuram. Algumas casas s鉶 simples, diversas, casebres, muitas, folhas de jornal, outras, mans鮡s. Muros, grades, guaritas, pol韈ia e governos separam todos os que moram de um lado daqueles que moram em mans鮡s. Pets, gatinhos, papagaios, hamsters, can醨ios fazem companhia aos que se sentem s髎 e encantam com suas habilidades. M鉫s morrem, pais morrem, pais se separam. Vi鷙os, vi鷙as, divorciados casam de novo e, 鄐 vezes acertam, em outras erram na escolha de quem ser� a madrasta ou o padrasto dos meninos e meninas que por ali j� est鉶. O bem e o mal travam luta constante, mas por desgra鏰, o mal tem vencido. Sem vit髍ias para celebrar, comemoram momentos em festas, rodas de samba, encontro entre amigos, passeios nos parques, nem sempre harmoniosos e pac韋icos, tentativas de celebrar momentos e pessoas que, se n鉶 duram para sempre, permanecem em boas mem髍ias. Para sempre.

Por que implicamos tanto com os contos de fadas? Eles s鉶 parte da fantasia que alimenta a inf鈔cia. N鉶 s鉶 mais mentirosos do que tantas coisas que as crian鏰s escutam e enxergam entre n髎. Censuramos a princesa, o beijo salvador, o pr韓cipe valente, o amor entre eles que durar� para sempre. Liberamos o celular, o tablet, o computador e desconhecemos o que chega at� as crian鏰s e trar� consequ阯cias para sempre.

Poder viver um mundo de cores suaves, de animais fofinhos, de lugares encantados, onde toda a maldade e sofrimento encontram um fim � direito das crian鏰s. Elas presenciam dor demais, pobreza extrema, medo constante, amea鏰s de fim de tudo iminente, por que impedi-las de se aventurar e sonhar em um mundo protegido onde sempre h� salva玢o?

O tempo da crian鏰 � diferente do nosso. O 損ara sempre� dos contos de fadas dura o tempo da narrativa, n鉶 � promessa de eternidade. Para elas, o sempre � o momento e se refaz a cada vez que a hist髍ia � contada, trazendo uma sensa玢o de resolu玢o e apaziguamento para aquilo que causa ang鷖tia. Conta de novo? Diz para mim que tudo pode ficar bem de um jeito que eu sinta, n鉶 necessariamente que entenda.

N鉶 � a princesa indefesa ou o pr韓cipe salvador que v鉶 moldar as rela珲es afetivas futuras. Elas dependem muito mais do aprendizado di醨io que a crian鏰 absorve ao ver as rela珲es estabelecidas entre pais, av髎, com outros familiares, empregados, amigos, colegas. Proibimos as princesas, mas continuamos a desmerecer o g阯ero feminino, expurgamos os pr韓cipes, mas continuamos a enaltecer o g阯ero masculino.

Ao crescer, se no cotidiano tiver aprendido a respeitar a si mesmo e aos outros, a pr髉ria crian鏰 vai descartar o que n鉶 lhe serve e o que n鉶 � justo. Mas a magia de um mundo encantado permanecer� e esta magia � que nos faz acreditar que vale a pena continuar tentando, mesmo que pare鏰 que a impossibilidade de mudan鏰 � a 鷑ica coisa que � para sempre.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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