Maria Avelina Fuhro Gastal
Antes de continuar a leitura, programe o cron鬽etro do seu rel骻io de pulso ou o alarme de seu celular para daqui a 6 minutos. N鉶 use a estrat間ia de contar at� 360, pois isso vai prejudicar a sua performance.
Feito? Retome a leitura.
Marco zero para mim: domingo, 27 de julho, 17h, quando retomei a escrita do texto.
Nestes minutos que ainda faltam para que o tempo se esgote, voc� pode ler o restante da cr鬾ica coment�-la, ler outros textos na minha p醙ina, navegar nas redes sociais, tomar um cafezinho, esquentar algo no micro-ondas, ir ao banheiro, conferir o whatsapp, mandar emojis, responder mensagens, dar um google em algo de seu interesse, separar a roupa para o banho, passar fio dental, escovar os dentes, cutucar o nariz, espremer cravos e espinhas, tirar a carne para amanh� do freezer, lavar a lou鏰 que est� na pia, brincar com o cachorro, mandar os filhos arrumarem a bagun鏰, tomar uma cerveja, fazer abdominais, alongamento, colocar roupa na m醧uina ou estender as j� lavadas . Fa鏰 o que tiver vontade ou precisar fazer.
� poss韛el fazer muita coisa em 6 minutos. Inclusive estuprar uma mulher.
Sim, � esse o intervalo de tempo no Brasil a cada estupro. Os dados s鉶 da 19� Edi玢o do Anu醨io Brasileiro de Seguran鏰 P鷅lica.
Oitenta por cento das v韙imas t阭 menos de 14 anos, metade delas s鉶 negras, 20,3% dos estupros s鉶 praticados por membros da fam韑ia. Av�, pai, parceiro ou ex-parceiro da m鉫, irm鉶, marido da tia, todos inofensivos aos olhos dos outros, aterrorizantes para as v韙imas, que ainda experimentam o conflito de amar quem as fere. Cicatriz que associa amor � dor, carinho a abuso e manifesta-se nas escolhas de parceiros ao longo da vida.
Parceiros que se enxergam como regentes do desejo, desconhecem o n鉶 ou os sinais de desinteresse pelo ato sexual naquele momento, ignoram a vontade da mulher, a transformam em deposit醨io de s阭en para al韛io de suas necessidades, cometem estupro marital com a certeza de estarem exercendo seus direitos, os delas n鉶 importam.
Mesmo que seja por haver mais den鷑cias, o n鷐ero de estupros � inadmiss韛el. Deve ser ainda maior j� que o sil阯cio, a amea鏰, o conflito, a vergonha impedem a den鷑cia do abuso.
Para muitos, sexo � associado a poder. Cabe ao homem 揷omer�, foder, penetrar, possuir. Eles t阭 a espada, a vara, o pau e usam como arma. Jamais fazem amor ou transam, subjugam pela for鏰, exercem seu dom韓io.
Aceitamos esse comportamento pernicioso, permitimos que convivam entre n髎, fingimos n鉶 perceber sua conduta predat髍ia, culpamos a v韙ima pelo ataque, elegemos para a presid阯cia um homem que ri ao dizer que 損intou um clima� com uma menina de 14 anos. Olhares de cobi鏰, elogios inadequados, piadas mis骻inas, desrespeito com colegas e familiares mulheres mostram o que insistimos em ignorar: um abusador em potencial entre n髎.
Vivemos em uma sociedade machista em que a mulher � vista como propriedade, como ser inferior, dependente de uma figura masculina e, as condi珲es de trabalho, diferen鏰 salarial e de oportunidades, perpetuam a discrimina玢o.
Seis minutos. N鉶 sei o que voc� fez nesse intervalo de tempo, mas um homem esteve estuprando uma mulher.
Uma mulher talvez n鉶 lhe diga nada. Mas esse homem pode ter estuprado sua filha, sua irm�, sua esposa, sua neta, sua amiga, sua m鉫. Toda mulher tem um rosto, um nome, uma hist髍ia. Toda mulher � um ser humano, n鉶 um objeto, mesmo aquelas que n鉶 s鉶 da sua fam韑ia.
Marco final para mim: quinta-feira, 31 de julho, 18h, retomada do texto para revis鉶 final.
Tempo entre o marco zero e o final:
4 dias e uma hora = 97 horas
1 estupro a cada 6 minutos = 10 estupros por hora
Antes do ponto final: 970 mulheres estupradas.
E continuamos somando.
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