Cabo de guerra


Maria Avelina Fuhro Gastal

H� tantas coisas que fazemos sem saber a origem. Escolhemos cores para eventos, repetimos rituais nas comemora珲es, respondemos a diversas situa珲es sem nem pensarmos naquilo que nos move ou no porqu� de nossas atitudes e comportamentos.

Tradi玢o, padr鉶 cultural, viv阯cias emocionais, expectativas e ilus鮡s s鉶 c鉫s guias em nossa cegueira comportamental.

At� mesmo nas brincadeiras ignoramos a origem, repetimos sem perceber que a ess阯cia se perdeu e restou, apenas, uma adapta玢o desgrenhada que valida e mant閙 algo de pernicioso que acata, justifica e incentiva o absurdo.

J� brincaram de cabo de guerra? Duas equipes disputam a posse de uma corda, puxando-a para o seu lado at� que uma das equipes seja puxada e ultrapasse uma marca central. N鉶 precisa de um espa鏾 espec韋ico para a brincadeira, pode ser em uma pra鏰, praia, gramado, descampado, em um terreno baldio. Muito democr醫ico. O 鷑ico elemento necess醨io � a corda e um n鷐ero igual de participantes em cada ponta dela. J� foi esporte ol韒pico entre os anos de 1900 e 1920. Em 1900 � Jogos Ol韒picos de Ver鉶 - Paris, apenas duas equipes participaram da disputa e a medalha de ouro ficou com a equipe sueco-dinamarquesa.

A origem da brincadeira � incerta, mas evoluiu de pr醫ica ritualista para um esporte popular. Imagina-se que tenha surgido como s韒bolo da luta entre for鏰s opostas, como o bem e o mal, ou para prever eventos naturais que interferem na colheita.

Na educa玢o infantil, nos dias de hoje, promove a coopera玢o, o trabalho em equipe e a socializa玢o entre as crian鏰s.

Talvez dev阺semos instituir o cabo de guerra como o jogo oficial do nosso pa韘.

O discurso sobre a sua import鈔cia estaria fundamentado nas habilidades preconizadas pela educa玢o infantil, enquanto a sua execu玢o retrataria a nossa realidade. Sabemos o quanto um discurso, mesmo que mentiroso, estimula a participa玢o de pessoas que deveriam jogar de um lado, optar pelo outro achando que a for鏰 e a vit髍ia ser鉶 comemoradas e usufru韉as por todos os envolvidos.

Em um lado da corda, grandes fortunas, grandes empres醨ios, novos ricos deslumbrados, auxiliados por empregados, professores, funcion醨ios p鷅licos, profissionais liberais, alguns artistas e escritores, banc醨ios e desvalidos, movidos pela cren鏰 de que a vit髍ia tamb閙 ser� deles. Do outro lado, comunistas, de qualquer origem, que s鉶 mais execrados pelos iguais que preferem o outro lado do que pelos pr髉rios algozes, j� que estes nem precisam mais bradar contra, pois conquistaram com tanta maestria seus servos que eles gritam, brigam e se esfor鏰m para derrubar aqueles a quem deveriam se unir.

Os nomes das equipes seriam 揘髎� e 揺les�, em letra min鷖cula mesmo, afinal 揺les� s鉶 a ral�. As vit髍ias do 揘髎� refor鏰riam os n髎 que garantem a sua for鏰 e seriam comemoradas sem a inclus鉶 dos membros n鉶-qualificados da equipe, que jamais seriam convidados para a festa, a n鉶 ser para 損agar sem ver toda essa droga, que j� vem malhada antes�*de cada um ter nascido.

Acostumados a vencer desde a coloniza玢o do pa韘, ao menor sinal de poss韛el derrota, os 揘髎� acusariam os 揺les� de estarem se organizando contra a soberania nacional e amea鏰ndo a democracia, apesar de n鉶 haver nenhum plano de golpe, nem depreda玢o de pr閐ios p鷅licos ou ataques 鄐 institui珲es democr醫icas, apenas a percep玢o ganhando f鬺ego de que h� s閏ulos 揺les� escolhem representantes dos 揘髎�, e estamos pagando o pre鏾.

Acuados, os 揘髎� clamariam, buscariam e aceitariam a interfer阯cia 揇ELES�, time que se pensa dono de todas as cordas mundiais. A resposta poderia assustar muitos dos 揘髎�. Mas seria um jogo. N鉶 me espantaria se um messias posasse de negociador e tomasse para si a revers鉶 da amea鏰, fazendo com que muitos acreditem ser ele, ou seus sucessores, a salva玢o para o 揘髎� que n鉶 tardariam a convencer muitos a somar for鏰s para derrubar 揺les�. Somos experts nesse jogo. A ta鏰 estaria garantida.

N鉶 se iludam. Nunca foi nem ser� um jogo igualit醨io se continuarmos a ignorar que jamais seremos 揘髎�. Seremos sempre 揺les". Vitoriosos, s� quando jogarmos ao lado dos iguais.



� Brasil � Cazuza - 1988

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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