Maria Avelina Fuhro Gastal
Primeiro domingo de maio acordei 鄐 6 horas, tomei um banho, chamei um Uber e fui para a rodovi醨ia.
H� mais de ano planejava essa ida a Pelotas, mas ela nunca acontecia. Dessa vez, passagem comprada no dia anterior, ida e volta, e o firme prop髎ito de rever minhas tias e tio.
Nenhuma bagagem, s� bolsa e um livro para suportar tr阺 horas e quinze minutos daquela paisagem sempre t鉶 igual, tantas vezes percorrida, a ponto de saber o nome de todas as pontes do caminho.
Quando o motorista do 鬾ibus se apresentou e desejou a todos uma boa viagem, eu vibrei. Ningu閙 sentado ao meu lado. Dois assentos pelo pre鏾 de um, lugar para esticar as pernas, espa鏾 para me espalhar, ler, cochilar. Merecido depois de oito voos nos dois meses anteriores onde se eu levantasse o bra鏾 nunca mais conseguiria abaixar, e n鉶 tinha certeza de que minhas pernas e p閟 ainda pertenciam ao meu corpo nas aterrissagens.
Logo ap髎 a primeira ponte do Gua韇a, um leve fog cobria a estrada. Cen醨io perfeito para dar continuidade � leitura de Mrs. Dalloway. Ela j� havia sa韉o para comprar flores e eu a acompanhava pelas ruas de Londres.
N鉶 foi um novo estrondo violento que fez Mrs. Dalloway se sobressaltar. Na realidade, n鉶 conseguia reconhecer aquele som. Um misto de m鷖ica mal tocada e grunhido de animal. O som foi silenciado, ouvia-se apenas a voz de uma mulher. 揝im. Foi cremada ontem. J� estou voltando para casa. Totalmente inesperado. Ela estava bem, fazia exerc韈ios. Do nada. Caiu dura no supermercado. Melhor assim. Ela sempre disse que n鉶 queria envelhecer.� Por mais quatro vezes o som de m鷖ica e grunhido romperam o barulho do motor do 鬾ibus e a hist髍ia foi repetida. Nenhum dado novo. Na 鷏tima vez, apenas o aconselhamento 揻iquem perto dela. � dif韈il perder pai e m鉫 em t鉶 curto espa鏾. N鉶 a deixem sozinha. Se eu pudesse, teria ficado um pouco mais.�
Mrs. Dalloway e eu esperamos por um novo som e a repeti玢o da hist髍ia. Nada. Talvez pud閟semos continuar por Londres, ver o carro do primeiro-ministro, ter not韈ias de Mrs. Whitbread, divagar quando a Peter Walsh e temer pelo futuro de Septimus.
Sem nenhum som pr関io, a voz voltou a se intrometer em nossa caminhada por Londres. 揙i. Estou no 鬾ibus. Chego pelas 11h15. Tudo bem, dentro do poss韛el. Sim, um choque. Totalmente inesperado. T�. Almo鏾 com voc阺, ent鉶. Vou direto ou algu閙 me busca na rodovi醨ia? Combinado, ent鉶.� Tirando a parte do almo鏾, mas uma d鷝ia de pessoas foram informadas sobre o ocorrido, o inusitado da situa玢o. Uma delas deve ter perguntado sobre a sa鷇e auditiva da voz retumbante, pois logo passamos a saber que 揳 dor no ouvido continua. J� tomei de tudo. Sim, amanh� vou marcar hora com ele, � o melhor otorrino que eu conhe鏾. Azar se tenho que ir a Rio Grande, em Pelotas e em Porto Alegre ningu閙 � t鉶 bom como ele. Meu ouvido parece que est� cheio o tempo todo e zumbindo. Um inferno.� Olhei para Mrs. Dalloway tentando faz�-la entender que, talvez, a situa玢o da sa鷇e auditiva daquela voz explicasse a necessidade de falar t鉶 alto, como se estivesse na sala de sua casa.
Estamos pr髕imos a Camaqu�. Os de l� e os de c� j� sabiam da morte repentina, do desejo da defunta, da dor de ouvido e do zumbido, do melhor otorrino do Rio Grande do Sul, qui玑 do Brasil, ou do mundo, e a hora da chegada em Pelotas. Em um ato de desespero, orei para que n鉶 houvesse mais ningu閙 a ser informado sobre nada.
N鉶 sei se pela falta de pr醫ica, ou de f�, minha prece n鉶 foi bem compreendida. Ningu閙 mais foi informado sobre as 鷏timas vinte quatro horas daquela voz, nem da sua dor de ouvido persistente, mas Augusto estava irredut韛el. Apesar das s鷓licas da sogra, ele n鉶 permitia que ela visse o neto. Ela tentava convenc�-lo que sempre teve por ele o afeto de um filho, n鉶 entendia porque ele havia se voltado contra ela. Augusto reagia entre raiva e cinismo, garantia que ela sabia sim o que havia feito e que ele n鉶 permitiria que ela contaminasse o neto com o seu veneno. Puro sofrimento, lam鷕ias, acusa珲es, vozes embargadas, um passado entre os dois que cobrava o seu pre鏾 e a moeda de troca era uma crian鏰, sei l� de que idade, que n鉶 podia estar com a av� que sofria e suplicava.
No meio daquela situa玢o dram醫ica, retorna o som da m鷖ica mal tocada misturada ao grunhido de um animal. Suspende o conflito sogra e genro, instala-se o conflito do almo鏾. Parece que a filha quer a m鉫 no almo鏾, mas ela j� disse que iria almo鏰r com o filho que vai busc�-la na rodovi醨ia. 揈u falo para ele que tu tamb閙 vais. Voc阺 t阭 que parar com isso. Eu n鉶 posso ficar sempre no meio dessa bobagem de voc阺. Ent鉶 eu vou para casa. N鉶 almo鏾 com nenhum de voc阺. Eu vou ligar pra ele. Claro que vou dizer o motivo. N鉶 vai ficar pior do que j� est�. Ent鉶, t�. Tchau�. Essa liga玢o n鉶 aconteceu. Nos quinze minutos finais da viagem, nenhum som, nenhuma voz, nenhuma liga玢o, nada do Augusto ou da sogra.
Eu j� tinha dispensado Mrs. Dalloway. Era muito para ela que j� tinha suas pr髉rias quest鮡s para lidar.
N鉶 vi se algu閙 pegou aquela voz na rodovi醨ia. Restou dessa viagem algumas quest鮡s e uma sugest鉶:
- Ter� ela ido almo鏰r com o filho? Se foi, o que dir� para a filha?
- Quem � o melhor otorrino do mundo que atende na cidade de Rio Grande? Nem � t鉶 longe daqui.
- Algu閙 est� fazendo companhia para a filha da falecida?
- Qual foi a causa da morte?
- Qual a rela玢o daquela voz com a defunta?
- Ter� Augusto perdoado a sogra e permitido a ela visitar o neto?
- Teria essa viagem contribu韉o para a decis鉶 de Septimus de tirar a pr髉ria vida?
Sejam quais forem as respostas a essas quest鮡s, sugiro que o motorista do 鬾ibus ao desejar uma boa viagem a todos, inclua a orienta玢o para os passageiros usarem fones de ouvido e se comunicarem com o mundo fora daquele ve韈ulo apenas por mensagens de texto.
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