COVIL-17


Maria Avelina Fuhro Gastal

Para quem escreve, a verossimilhan鏰 de tirar o sono. N鉶 basta que a hist髍ia ficcional esteja baseada na realidade, ela precisa convencer o leitor que o que est sendo contado poss韛el.

Hist髍ias de amor que enfrentam encontros e desencontros, pessoas que sofrem in鷐eras perdas, segredos familiares perpetuando-se atrav閟 de gera珲es e condenando os membros a repeti珲es, abusos emocionais, f韘icos ou sexuais, abandono, assassinatos, feminic韉ios, comportamentos aditivos, conflitos familiares, geracionais e tantos outros temas fazem parte da narrativa de nossa vida, como protagonistas, coadjuvantes, espectadores ou simples curiosos. Mas em um conto, novela ou romance precisamos ir al閙 do vivido e criar coer阯cia ficcional que as torne cr韛eis.

A exig阯cia com esse cuidado estende-se constru玢o do ambiente, cenas, di醠ogos, linguagem, voz de cada personagem. E, mira tamb閙, o leitor alvo da narrativa.
Se eu estiver escrevendo para brasileiros, posso usar a express鉶 揺sgoto a c閡 aberto que, apesar de absurdo total, entendemos e conseguimos visualizar as condi珲es do espa鏾 descrito. Se formos traduzidos para lan鏰mento, digamos, na Su閏ia, teremos que reescrever o cen醨io. N鉶 o mudar, mas torn-lo poss韛el de ser visualizado por quem n鉶 faz ideia do que sejam as reais condi珲es de vida da popula玢o da periferia de nossas cidades.

Imaginem o trabalho de constru玢o ficcional de um escritor que tivesse imaginado h pouco tempo, antes de fevereiro de 2020, uma hist髍ia onde um v韗us, em uma cidade do interior do continente asi醫ico, atingisse maci鏰mente a popula玢o, apresentando sintomas de gripe, e em dias, ou at mesmo horas, provocasse uma grave crise respirat髍ia, provocando mortes por fal阯cia dos pulm鮡s, com grande poder de transmiss鉶 e sem responder a nenhum tratamento conhecido pela ci阯cia em pleno S閏ulo XXI. Se fosse s isso, j exigiria uma trama cuidadosamente constru韉a. Acrescente ao enredo inicial, a contamina玢o mundial em menos de tr阺 meses, a incapacidade do sistema de sa鷇e em atender a demanda, l韉eres mundiais contaminados, economia paralisada pela necessidade de isolamento social, Nova York vazia, avi鮡s em terra, escolas, universidades, com閞cio fechados, cad醰eres empilhados, ou pelas ruas at serem recolhidos em c鈓aras frigor韋icas espalhadas pelas cidades. Para finalizar, nenhuma perspectiva de tempo de dura玢o da pandemia, sem ideia das consequ阯cias mundiais econ鬽icas e sociais ou possibilidade de sequelas e reinfec珲es pelos indiv韉uos. Se com tudo isso o autor conseguisse construir uma hist髍ia em que acredit醩semos, teria feito a obra da sua vida. Refer阯cia para narrativas de distopia.

A realidade muita mais dura e cruel do que qualquer fic玢o. Vivemos o que acontece conosco como surreal porque nos amea鏰, nos joga em um mundo que desconhecemos e para o qual n鉶 temos recursos imediatos para lan鏰r m鉶. Qualificamos de inimagin醰el pois vai al閙 do que podemos compreender ou aceitar. Inacredit醰el porque nos custa reconhecer que n鉶 temos mais a vida que acredit醰amos ter e que se desfez em pouco tempo. Fomos pegos de surpresa. Reagimos negando a capilaridade que o coronav韗us atingiria. Tivemos pouco tempo para assimilar o que estava acontecendo e entender o que viria a acontecer.

Hoje, 24 de abril de 2020, li e ouvi as palavras surreal, inimagin醰el e inacredit醰el por diversas vezes ao longo do dia. O motivo n鉶 era a pandemia. Terminamos a manh com a coletiva do ent鉶 Ministro da Justi鏰 e Seguran鏰, S閞gio Moro, apresentando sua demiss鉶 imprensa e Na玢o, com graves den鷑cias da conduta do presidente (me nego a citar o nome), ferindo princ韕ios republicanos e democr醫icos.

Sinceramente, n鉶 sei onde a qualifica玢o de surreal, inimagin醰el ou inacredit醰el se aplicam. Se for com rela玢o postura do Moro, at posso tentar entender. Se for referente conduta do presidente nas den鷑cias apresentadas, n鉶 h a menor possibilidade de as palavras surreal, inimagin醰el ou inacredit醰el serem usadas. Ele nunca escondeu o discurso, sempre defendeu a ditadura, a tortura. Enalteceu Ustra. Humilhou as mulheres, os desvalidos, os trabalhadores, os ind韌enas. Desrespeitou os Poderes, as institui珲es democr醫icas. Confessou manter o apartamento funcional para comer gente. Apartamento pago por dinheiro p鷅lico. Fugiu aos debates. Nunca ouviu ningu閙 al閙 dos filhos e do Olavo de Carvalho. Sempre falou como miliciano. Mis骻ino, racista, preconceituoso, raso, despreparado. Tudo isso durante a campanha, antes da facada salvadora. Ap髎 eleito, sempre agiu de forma coerente a sua escolha em desrespeitar pessoas e institui珲es. Ent鉶, onde est a surpresa? O surreal? O inimagin醰el? O inacredit醰el?

Eu j me desiludi com o meu voto, j sofri pelo que acreditava e vi desmoronar. Mas sempre votei com base nos meus valores e vis鉶 de sociedade.

Escuto o tempo todo, votei nele para n鉶 votar no PT, n鉶 tinha escolha. Sempre h escolha. O voto manifesta o que desejas, acreditas, esperas. Se nenhum candidato corresponde a isso, podes escolher o voto em branco ou nulo. a manifesta玢o do teu desacordo, da tua inconformidade com as op珲es. Se decides votar em algu閙, porque h algo nele que repercute naquilo que pensas. N鉶 diga que foste enganado. Ele nunca se escondeu. Mostrou a cara para fazer o trabalho sujo que muitos da sociedade esperavam que fosse feito.

Para mim, e para muitos outros, o surreal, o inacredit醰el, o inimagin醰el ter que conviver com a COVID-19 e o COVIL-17 ao mesmo tempo. desumanidade ao extremo. Para tantos outros, guardem sua inconformidade para a pandemia, porque do resto voc阺 sabiam e escolheram mesmo assim.

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Maria Avelina Fuhro Gastal

E-mail: avelinagastal@hotmail.com

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